A transição do sofrimento
decorrente do término de um casamento para a reconstrução da subjetividade
exige compreender que a perda conjugal atua como uma quebra no ambiente
facilitador que sustentava o indivíduo. Sob a ótica de Winnicott (1983), a
união matrimonial estabelece frequentemente um arranjo de sustentação egoica,
operando como o prolongamento das funções de holding necessárias para a estabilidade
psíquica do sujeito adulto. Ao se deparar com o esfacelamento desse arranjo, o
sujeito é impelido a vivenciar uma sobreposição de dinâmicas afetivas: o luto
real e o luto simbólico.
Para explicar esse lugar
de dor paralisante, torna-se necessário recorrer à transição conceitual
clássica operada por Winnicott (1975) entre o "relacionar-se com o
objeto" (object-relating)
e o "usar um objeto" (object-usage).
No início e na sustentação de muitos casamentos, o parceiro é investido
predominantemente como um objeto subjetivo. Isso significa que ele não é
percebido em sua alteridade total, mas sim como um feixe de projeções egoicas,
expectativas e necessidades remanescentes de amparo, funcionando sob uma ilusão
de onipotência do sujeito. O indivíduo se relaciona com o cônjuge como se este
fosse uma extensão de si mesmo ou um garantidor de seu próprio senso de
identidade, fazendo da rotina compartilhada um espelho cotidiano.
A perda, portanto,
desestrutura essa base. O luto real diz respeito à perda concreta do objeto, à
ausência física do parceiro na rotina, à destituição do espaço geográfico
compartilhado e à quebra definitiva dos laços contratuais e jurídicos. Por sua
vez, o luto simbólico opera em uma dimensão mais profunda e subjetiva. Ele
evoca a perda das ilusões, das projeções onipotentes que haviam sido depositadas
no outro e das expectativas de futuro idealizadas pelo casal. No luto
simbólico, o que se chora é a morte da imagem do parceiro enquanto
prolongamento do próprio Self.
A desestruturação desse arranjo é vivenciada pelo Eu como uma ameaça à
continuidade do ser. O indivíduo precisa, portanto, elaborar tanto a falta
física do ser amado quanto o desmoronamento dos significados existenciais que
davam contorno à sua identidade.
A saída definitiva dessa
realidade de sofrimento ocorre quando o indivíduo se torna capaz de expressar a
destrutividade inerente ao luto: sua raiva, frustração e desespero, e constatar
que o ex-parceiro sobreviveu a esses ataques imaginários, continuando a existir
no mundo externo de forma separada e autônoma. A sobrevivência do objeto
permite que o sujeito rompa a barreira da fantasia subjetiva e acesse a
realidade compartilhada. O esvaziamento da rotina conjugal, antes paralisante,
passa a ser habitado como um espaço potencial e criativo. Desse modo, ao
colocar o objeto fora de seu controle onipotente e consolidar a capacidade de
estar só (Winnicott, 1983), o sujeito internaliza o holding que outrora dependia do
casamento, restabelecendo sua espontaneidade e sua autonomia psíquica para
recomeçar.
O encerramento desse
percurso reconstrutivo encontra sua perfeita síntese ética e existencial nas
reflexões de Ferreira (2020), no texto "A Hora de Dizer Adeus!".
Ferreira (2020) pontua que fomos culturalmente ensinados a celebrar as
chegadas, tornando as despedidas processos profundamente dolorosos. Diante da
perda, o sujeito frequentemente mergulha em "conflitos alucinatórios"
e em fantasias ancoradas no condicional "e se" — conjecturando
caminhos para reverter o tempo ou modificar as ações passadas. Todavia, a
autora ressalta a urgência do retorno ao princípio da realidade: é preciso
aceitar que o navio que partiu não fará uma conversão e que não estamos
condicionados aos "ses". Para quem fica na "beira do cais"
do luto, a alternativa saudável e madura exige o enfrentamento factual da
realidade. A resolução desse sofrimento impõe o ato de "sair do cais e
tirar os olhos do horizonte", transmutando a dor paralisante na
preservação das boas lembranças. Ao internalizar e ancorar o objeto perdido nas
recordações internas, o indivíduo finalmente alcança o discernimento psíquico
necessário para assinalar a hora certa de dizer adeus.
Referências
FERREIRA, Leopoldina
Veiga Guimarães. A Hora de Dizer Adeus!
Blog Psicóloga Léo, 02 jul. 2020. Disponível em:
https://www.psicologaleo.com.br/2020/07/a-hora-de-dizer-adeus.html. Acesso em:
07 out. 2026.
WINNICOTT, Donald Woods.
A capacidade de estar só (1958). In: WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos
sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto
Alegre: Artmed, 1983.
WINNICOTT, Donald Woods.
O uso de um objeto e relacionamento através de identificações (1969). In:
WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade.
Rio de Janeiro: Imago, 1975.

0 Comentários