Autora:
Leopoldina Guimarães
A sociedade ao longo da sua
história vem sendo construída e reconstruída pelo espírito do tempo que a
acompanha. Quando se pensa na evolução cultural contemporânea,
observa-se que com grande frequência o indivíduo corre desenfreadamente em
busca de satisfações pessoais, muitas vezes inatingíveis e intoleráveis
psiquicamente para si. Ele geralmente
tece o seu destino em sociedade sem saber para onde vai e aonde quer parar.
Sigmund Freud (1996b) preocupou-se em mencionar que, em determinada civilização,
quando já se viveu um tempo significativo os ditames estabelecidos por ela e se
tentou descobrir como ela se desenvolveu, investigando a raiz das suas origens,
surge um olhar de preocupação com o que se pode esperar do futuro, temendo o
que estas novas experiências sociais podem desencadear. Esta reflexão tão
importante parte somente de uma minoria, pois a maioria da sociedade abstém-se
de se dedicar a tais indagações, e é justamente a diminuição da reflexão sobre
passado e presente que conduz o indivíduo a um futuro desajuizado, incerto e inseguro.
Refletir sobre o espírito do tempo que atravessa gerações é
necessário, pois ao se compreender as formas culturais de cada época, um olhar
crítico passa a existir, sendo possível entender com maior propriedade de que
maneira tais mudanças atingem épocas e formas culturais afins. Por exemplo, ao se
pensar na configuração cultural da época na qual se deu o próprio surgimento da
psicanálise, era do apogeu do estilo vitoriano, no século XIX, observa-se que naquele
contexto a moralidade se tornou a expressão da vida em sociedade, de forma com
que, para corresponder aos anseios sociais, o indivíduo necessitava incorporar hipocritamente
uma postura que não correspondia estritamente com sua personalidade, que necessitava
ser camuflada. Em meio a tal correspondência dos comportamentos ao puritanismo
vitoriano, podemos considerar que a psicopatologia corresponde, nesta época, ao
próprio afastamento desejante do corpo, que se torna ele mesmo um sintoma; neste
cenário surge a histeria como a sintomatologia da época, possivelmente
desencadeada pela opressão à qual o feminino era submetido. No confronto com aquela
época delineamos o funcionamento de nosso próprio tempo; o cenário cultural
mudou, as revoluções sexuais e políticas permitiram que a sociedade pudesse
viver sob o princípio do prazer, buscando as mais variadas satisfações, mesmo
que momentâneas, e frente à possibilidade de satisfação do desejo, a realidade
passa a não ter a mesma força de tolhimento. Neste cenário a histeria
conversiva já não tem razão de ser; surgem novas configurações patológicas
motivadas pelo desenrolar do espírito do tempo.
A
subjetividade contemporânea então vem
sendo modificada perante as exigências culturais, de maneira que compreender a
subjetividade contemporânea e sua nova configuração tem se tornado um desafio; como
se é entendido, a subjetividade é constituída ao longo do tempo a partir de
fatores biopsicossociais, e é por meio deste alicerce que o indivíduo
diferencia-se do outro, cultivando, assim, sua singularidade. Entretanto,
paradoxalmente a cultura vigente se utiliza, para dar forma à subjetividade, de
uma intersubjetividade, e esta seria uma subjetividade coletivizada. A partir
da apropriação desta nova configuração, hábitos comuns são compartilhados por
todos e com todos, e a subjetividade, então, sofre um processo de massificação
que a apaga em si mesma.
A partir desta nova configuração
subjetiva há uma crise identitária, pois ser ou não ser já
não é tão relevante. Sabe-se que a identidade é um conjunto de características
específicas na qual o indivíduo apresenta sua singularidade e peculiaridade,
sendo uma marca digna de ser cultivada e preservada. Entretanto, a cultura – “líquida”, segundo
expressão de Bauman – vigente, ao instituir novas formas identitárias atraentes
aos olhos de quem segue firmemente os padrões socioculturais, possibilita que o
sujeito manifeste as mais diferenciadas identidades, enquanto que a própria –
se há - é camuflada. Neste contexto em
que as formas subjetivas e identitárias entram em declínio, faz-se necessário
descrever a vivência em simulacro - que nada mais é do que um cenário onde as
pessoas representam papéis, habituando-se aos padrões estabelecidos e
apregoados pelo espetáculo cultural. A pessoa, então, em busca do selo
de aprovação social, opta pelo não ser, deixando de evidenciar sua unicidade e
sua a capacidade de ser quem de fato é.
No cenário dramatúrgico, surge, como apontado por Birman
(2009), dois atores: de um lado a categoria de perdedores e de outro os
vencedores. Os que entram em cena para mandar, os vencedores, seriam os
perversos, e os perdedores dominados, os submissos. Este primeiro apresenta
características sádicas e o segundo as masoquistas, não conforme a
visão freudiana diretamente ligada ao desvio sexual,
mas deslocadas para o campo social, no qual o sádico manda e o masoquista simplesmente
obedece (CUNHA, 2014). Um dos ambientes
nos quais estes atores com desenvoltura representam seus respectivos papéis são as
Redes Sociais de Internet, cenário propício para se dissimular:
virtualmente, as pessoas vivenciam com naturalidade o simulacro. Assim, no
ciberespaço, o internauta se reinventa, representa, fantasia, forja sua real
identidade afastando-se do princípio da realidade, tão importante para uma
personalidade saudável.
Outro fator que é evidenciado na
cultura do simulacro é a síndrome do narcisismo, considerada como um mal estar presente na organização social que incide
sobre as subjetividades. (BUCIANO; OLIVEIRA,
2012). Vale
mencionar que este termo, o narcisismo, tem origem na mitologia grega de
Narciso, um jovem com beleza sem igual, que, ao contemplar seu reflexo na água,
apaixona-se por si, mergulha no rio e morre. Este
mito exemplifica bem a síndrome do Narciso apresentada pela cultura atual: o
indivíduo está imerso em uma sociedade extremamente competitiva, buscando
incessantemente o direito de espaço, aparentando ser bem sucedido, mas corre o
risco de não ver a mais ninguém e afogar-se em sua própria imagem. O indivíduo
cerceado por essa configuração patológica e contido por sua própria
personalidade cria um novo eu e domina o outro sem maiores dificuldades,
buscando os aplausos, pois em seu psiquismo ele deve ser glorificado por tudo e
todos. Este desejo narcísico muitas vezes manifesta-se impulsivamente, de
maneira que, para continuar sua representação, o indivíduo é incentivado a
buscar um estilo de vida consumista, obedecendo ao discurso social de que precisa
ter mais do que ser, de maneira que, motivado pela compulsão, busca satisfações
imediatas, preocupando-se em rapidamente descartar seus objetos, sendo
tendencioso a descartar também seus relacionamentos como se fossem simples
objetos, ou transformando-os em simples mercadoria. A compulsão aparece, então,
como uma nova sintomatologia contemporânea.
As novas configurações patológicas contemporâneas atravessam
fronteiras, de maneira que tanto na sociedade ocidental quanto na oriental o
mal estar contemporâneo se instaura. Enquanto que brasileiros vivem sobre o
princípio do prazer, dando satisfação imediata ao id e surgem patologias
associadas à busca incessante pela satisfação pessoal, como a ansiedade, o
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e a Síndrome do Pensamento
Acelerado, que tem atingido a grande parte da população, as sociedades
orientais, contrariamente, cujas configurações são mais castradoras, dão voz ao
superego. Os japoneses, por exemplo, vivenciam o fenômeno do hikikomori
que atinge mais de 1 milhão e meio de jovens orientais. Tais jovens se retiraram
do convívio social, voltando a agressividade para si, não vendo a possibilidade
de manter um relacionamento com o outro.
A partir destas sintomatologias psicopatológicas
contemporâneas, podemos antever uma reação do indivíduo perante o próprio
funcionamento de sua cultura. Em face desta realidade, cabe à
psicologia acolher as novas demandas produzidas pela vivência em simulacro
da cultura do espetáculo. Considerando a preocupação inicial de Freud sobre o
futuro da civilização, vemos que as formas de adoecimento têm mudado de configuração, sofrendo
uma influência cultural que incide sob as personalidades, e que esta mudança
pode comprometer a saúde mental e as formas de relacionamentos sociais
significativos; cabe ao indivíduo refletir sobre a importância de descobrir uma
identidade autêntica, e, para tanto, a psicologia, que pode vir em seu auxílio mediante
esta realidade, tem de estar ciente destes processos de informação da
subjetividade mediante a imposição sociocultural do simulacro, a fim de
auxiliar o indivíduo a evitar a rota de fuga da realidade, na busca por imagens
perfeitas que jamais serão plenamente alcançadas.
REFERÊNCIAS
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consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
_______. Identidade: entrevista e
benedetto vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
_______. Vida líquida. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
_______. Vida para o consumo:
a transformação das pessoas em mercadoria.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
_______. A arte da vida. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
BIRMAN,
Joel. Os paradigmas em psicanálise. In:
BIRMAN, et al (Org.). A fabricação do humano: psicanálise, subjetivação e
cultura. 1 ed. São Paulo: Zagodoni, 2014. v. 1, cap. 1, p.17-42.
BUCIANO DO
ROSÁRIO, Ângela; DE OLIVEIRA MOREIRA, Jacqueline. Culpa e narcisismo na
tragédia moderna. Analytica:
Revista de Psicanálise. São João
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<http://pepsic.bvsalud.org/pdf/analytica/v1n1/v1n1a05.pdf>. Acesso em: 20
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CUNHA,
Eduardo Leal. A dupla face do desmentido na atualidade: entre o aniquilamento
do outro e a felicidade em simulacro. In: BIRMAN et al (Org.). A fabricação do humano: psicanálise,
subjetivação e cultura. 1 ed. São Paulo: Zagodoni, 2014. v.1, cap. 2, p.
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CURY,
Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal
do século: a síndrome do pensamento acelerado: como e por que a humanidade
adoeceu coletivamente, das crianças ao adulto. São Paulo: Saraiva, 2014.
FREUD, S. O Futuro de uma
Ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos. Ed. Standard
Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. Obras psicológicas completas. Volume
XXI.

1 Comentários
Muitoo boaa reflexão, em relação a identidade creio que as pessoas em busca de aceitação acabam deixando sua essência de lado, o seu verdadeiro eu, e é buscando se encontrar que muitos acabam se perdendo, fazendo com que os profissionais da psicóloga entrem em ação, e restaure a saúde mental.
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