Autora: Leopoldina Veiga Guimarães
Ferreira
Na caminhada da vida aprendemos que é mais fácil um abraço na
chegada do que o adeus da partida. Fomos muito bem ensinados a sorrir quando os
barcos encostam-se aos portos, do que quando eles recolhem suas âncoras,
levantam suas velas e partem na imensidão do mar. É bom ver a chegada, mas a
despedida é dolorida para muitos. Ainda assim, sabemos que muitos barcos farão
sua viagem e retornarão, porém quando é a última viagem das nossas vidas, não
dá mais para voltar.
Como conviver com as perdas? Como aceitar que o navio da vida
não retornará? Como saber aceitar que não veremos mais aquele rosto? Como acreditar
que não sorriremos mais juntos, que as gargalhadas não mais acontecerão? Como se
desprender dos abraços calorosos de quem tanto amamos? Como entender que é hora
de dizer adeus?
O enfrentamento do luto é um processo que precisa ser
elaborado. Para alguns, tal processo é menos doloroso, outros, porém, enfrentam
dias difíceis à beira do cais, na esperança talvez de que o navio da vida
ancore novamente no porto. Sublimando sua dor, buscando amenizar seu sofrimento.
Perdas simbólicas, mas também perdas reais fazem com que cada
indivíduo tenha um olhar diferenciado sobre o horizonte. Horas fantasiando que
talvez houvesse uma solução, uma cura, um avanço na ciência para trazer de
volta nossos entes queridos.
Porém, em meio a conflitos alucinatórios, por vezes, faz-se
necessário voltar ao princípio da realidade, entendendo que por mais que
quiséssemos, o navio que partiu, seguiu em direção ao seu último destino e o
seu leme jamais fará uma conversão, voltando ao seu destino anterior. Não dá
para voltar, é hora de dizer adeus!
E se pudéssemos fazer mais? E se tivéssemos o poder de voltar
o tempo? E se tivéssemos a chance de fazer mais uma vez? E se pudéssemos
abraçar mais, beijar mais, cheirar mais ou dançar mais uma vez? Como seria se o
navio nos surpreendesse e ancorasse mais uma vez em nosso cais? E se
aguardássemos a chegada do navio com um lindo buquê de flores?
Mas infelizmente não estamos condicionados aos “ses”. Por mais
que queiramos, não podemos fazer mais, nem atrasar o relógio, nem abraçar,
beijar, cheirar ou dançar mais uma vez. Muito menos esperar com flores a
chegada do navio.
Somos finitos. Fecundamos, nascemos, crescemos e morremos. É o
processo natural da evolução humana. Alguns navios seguem o curso de rios e
mares sem saber que é sua última viagem e ao enfrentarem furiosas tempestades,
não são capazes de controlar o ímpeto das ondas e encerram sua viagem.
E aos que ficam na beira do cais, cabe a elaboração, o
enfrentamento da realidade. O barco não voltará. É preciso sair do cais e tirar
os olhos do horizonte. Guardar as boas lembranças é uma alternativa saudável de
vivenciar o luto com os pés no chão. Saber que apesar do barco não ancorar mais
no cais, ele estará ancorado nas nossas lembranças. Deste modo, você saberá a
hora certa de dizer adeus ou quem sabe um até breve.

1 Comentários
lindo texto, como é doloroso a última partida;, amar mais, abraçar mais nos deixaria um pouco menos triste nesse momento.
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