A importância do vínculo é enfatizada na clínica psicanalítica principalmente através dos conceitos Transferência e Contratransferência, que representam a forma como esses conteúdos são absorvidos inconscientemente pelo paciente e pelo analista de forma a influenciarem afetivamente os mesmo.
Zuanazzi e Sei (2014) pontuam que os elementos transferenciais e contratransferenciais, apesar de tidos como complexos, são essenciais na prática psicanalítica, independente do contexto em que se manifestarem.
Zuanazzi e Sei (2014) pontuam que os elementos transferenciais e contratransferenciais, apesar de tidos como complexos, são essenciais na prática psicanalítica, independente do contexto em que se manifestarem.
Zimerman (1999) traz a etimologia de transferência como resultados dos étimos latinos trans, cujo significado é a passagem através de ou passar para um outro nível; e feros que significa conduzir.
Psicanaliticamente a transferência é definida como o “conjunto das relações inconscientes do analisando à pessoa do analista e, mas particularmente, à transferência deste”. Seria o processo onde o paciente expressa no setting desejos infantis, de maneira que é necessário o reconhecimento do analista para que sejam evitadas qualquer problemática no tratamento psicanalítico. (LAPLANCHE, PONTALIS, 2001, p. 102). Zimerman (1999) traz o conceito como:
(...) o conjunto de todas as formas pelas quais o paciente vivencia com a pessoa do psicanalista, na experiência emocional da relação analítica, todas as ‘representações’ que ele tem do seu próprio self, as ‘relações objetais’ que habitam o seu psiquismo e os conteúdos psíquicos que estão organizados como ‘fantasias inconscientes’, com as respectivas distorções perceptivas, de modo a permitir ‘interpretações’ do psicanalista, as quais possibilitem a integração do presente com o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente. (ZIMERMAN, 1999, p. 331).
A transferência é a forma como o paciente responde inconscientemente, projeta no analista conteúdos afetivos instigados no vínculo. Em última instância esses conteúdos sinalizam conteúdos infantis que são atualizados na figura do analista. Já a contratransferência é a forma como o analista reage afetivamente, responde inconscientemente a transferência projetada pelo paciente nele. Zambelliet al (2013) afirma que toda a análise perpassa por este fenômeno, pois ao que ao receber conteúdos transferenciais por parte do paciente, o analista vivencia este fenômeno no setting terapêutico, o que o remete a necessidade de análise pessoal, a prática da supervisão, além da escrita clínica. O que é acordado por Winck (2013) que pontua que é essencial que o analista saiba manejar com este fenômeno na prática, para que a análise tenha um bom êxito.
Zimerman (1999, p. 330) menciona que “a transferência advém tanto da pessoa do analisando como, também, do próprio psicanalista, além de, em cada um deles separadamente, ou entre eles, em diferentes arranjos combinatórios, adquirir múltiplas manifestações clínicas”.
Embora o fenômeno transferencial esteja virtualmente presente em todas as inter-relações humanas, o termo ‘transferência’ deve ficar reservado unicamente para a relação presente no processo psicanalítico, onde juntamente com a ‘resistência’ e a ‘interpretação’, constitui o tripé fundamental da prática da psicanálise, dando-lhe o selo de genuidade psicanalítica, entre outras modalidades psicoterápicas. (ZIMERMAN. 1999, p. 331).
Ao longo da obra freudiana este conceito sofreu modificações. Freud (1996a, p. 215) traz que inicialmente este fenômeno diz respeito aos afetos que interferiam no andamento objetivo do relacionamento podendo prejudicar o vínculo, de maneira que o paciente transfere para a figura do analista “as representações aflitivas que emergem do conteúdo da análise”, o que se dará através de uma “falsa ligação”, que seria a transferência.Através deste processo, o mecanismo dedefesa da resistência atuariano psiquismo do paciente como uma poderosa arma, dificultando o processo terapêutico. Entretanto, mais adiante, Freud (1996b, p.) traz em “A Dinâmica da Transferência”,uma nova compreensão, entendendo ser um material importante proveniente do inconsciente do analista que pode contribuir na intervenção por oferecer informações relevantes a respeito dos conteúdos projetados no analista.Ele apresenta dois tipos de transferência, a positiva e a negativa. A positiva está diretamente ligada aos sentimentos amigáveis externados pelo paciente ao seu analista de maneira consciente, que pode vir atrelada da transferência erótica que representam conteúdos sexuais inconscientes, sublimados pelo amor não sexualidado. Zimerman (1999, p. 338) menciona que na negativa são perpassados sentimentos hostis, onde as pulsões agressivas são determinantes, como “inveja, ciúme, rivalidade, voracidade, ambição desmedida, algumas formas de destrutividade, as eróticas incluídas,etc”.este mesmo autor afirma que estes termos tornaram-se inadequadas para a compreensão psicanalítica, pois estão atreladas a conteúdos judicativos, superegóicos. Entretanto, como são consagrados devem ser preservados, desde que direcionem a uma concepção desprendida do olhar moralístico.
Zambelliet al (2013, p.181) pontua que este processo como uma das ferramentas fundamentais na prática clínica psicanalítica. Para tanto torna-se necessário abordar o tema transferência, uma vez que está diretamente conjugada a contratransferência. Como já pontuado anteriormente, a priori tanto a transferência, quanto a contratransferência foram apontadas como obstáculos ao processo analítico, entretanto hoje tal incidência tem um papel essencial na prática clínica.
MOSTRAS DE TRANSFERÊNCIA
Zimerman (1999) aponta os fenômenos transferenciais da atualidade: a Transferência Especular, a Transferência Idealizadora, a Transferência Erótica e Erotizada, a Psicose de Transferência e Transferência de Impasse. NaTransferência Especular o paciente busca o analista como espelho, querendo ser valorizado, e que o analista perceber a sua existência. Aqui o analista deve funcionar como ego auxiliar do analisando, mas gradativamente possibilite que o paciente encontre a autonomia para lidar com os seus conteúdos; na Transferência Idealizada perdeu a versão defendida inicialmente onde o paciente controlava analista como imagem idealizada, de maneira que ele se sentia de certa forma obrigado a corresponder as expectativas do paciente, de maneira que o analista deveria despojar-se dela o quanto antes. Entretanto, na atual conjuntura, entende-se que ela é indispensável para a construção de um vínculo verdadeiro, salvo o cuidado que o analista deve ter de não buscar ser entronizado pelo paciente; a Transferência Erótica eErotizada cunhada por Freud em 1915, onde o paciente se “apaixona” pelo analista de maneira irreal e inconsciente. Na Transferência Erótica os sentimentos são afetuosos e carinhosos, mas caso dada a possibilidade de atração sexual, desejo sexual obcecado, consciente, refere-se àTransferência Erotizada. Neste caso, o analista é alertado a não confundir essa relação com um amor verdadeiro, além do que ao agravar-se a situação, a terapia perde sua relevância devendo ser interrompida ou encaminhar o paciente; a Transferência Perversa não está ligada a perversão, mas ao desvio da normalidade. Neste tipo, o paciente tenta perverter o que foi previamente acertado no enquadre como regras, pagamentos, ser digno de privilégios, provocar seu analista de maneira que o retire do seu lugar. Esta tipologia é perigosa quando se refere a estruturas psicopáticas; e a Transferência de Impasse não aparece na literaturapsicanalítica, ela designa períodos transferenciais característicos na psicodinâmica analítica, podendo se direcionar ao erotismo e o analisando é invadido por ansiedades paranoides, de maneira que no setting terapêutico direciona suas queixas e acusações para o analista.
A CONTRATRANSFERÊNCIA
Direcionando para a contratransferência Laplanche e Pontalis(2001) dialogam que é um conjunto das relações inconscientes advindas da pessoa do analista ao analisando, sendo direcionada a transferência deste. Em relação ao conceito de Contratransferência Zimerman:
A constante interação entre analista e pacienteimplica um processo de uma recíproca introjeção,das identificações projetivas do outro. Quando issoocorre mais especificamente na pessoa do analista,pode mobilizar nele, durante a sessão, uma respostaemocional – surda ou manifesta – sob a formade um conjunto de sentimentos, afetos, associações,fantasias, evocações, lapsos, imagens, sensaçõescorporais, etc. Não raramente essa resposta emocionalpode prolongar-se no analista para fora da sessão,pelos sonhos, actings, identificações ou somatizaçõesque traduzem a permanência de resíduoscontratransferenciais. (ZIMERMAN, 1999, p. 351).
Na atualidade há uma aceitação de aspecto tríplice dos psicanalistas em relação à contratransferência:obstáculo, instrumento e campo, onde o analisando revive suas experiências emocionais inicias que marcaram suas vidas. Ela é resultante da interação entre o inconsciente do analista e o inconsciente do analisando. O fenômeno contratransferencial pode surgir das maias diversas experiências analíticas, de forma singular e única. (ZIMERMAN, 1999). Entretanto, Leitão (2012) aponta como um dos conceitos fundamentais no campo analítico.
TIPOS DE CONTRATRANSFERÊNCIA
Existem diversas formas de contratransferência, dentre elas encontram-se: a Contratransferência Erotizada, a Contratransferência Somatizada e a Sonolência.Na primeira o analista pode despertar sensações e desejos eróticos pelo paciente, que mediante a transferência são recebidos por vias contratransferenciais. O terapeuta então deve reconhecer a situação para que não prejudique o andamento da análise; na segunda, se manifesta esporadicamente na psicodinâmica da análise, onde o terapeuta pode somatizar de diversas formas e intensidades, como: através de certo desconforto físico, fortes sensações, sintomas corporais, sonhos do analista, entre outras; e a por fim a terceira, onde o analista pode evidenciá-la dentro de três possibilidades:1. Devido a uma grande esforço do seu superego, distanciando pulsões e ansiedades advindas do discurso do paciente; 2. Que o analista entre emestadohipnóide, devido ao discurso melancólico do paciente; 3. Como contra-identificação do analista em relação às identificações projetivas do analisando. (ZIMERMAN, 1999).
A maneira como o analista utilizará esta ferramenta durante o processo de análise é essencial para o avanço ou declínio da análise. Desta forma ao se reconhecer os sentimentos contratransferenciais, o analista deve partir para a análise pessoal, a fim de que a dinâmica terapêutica não sofra nenhum dano. (PEREIRA; DA SILVA, 2014). Além da ética profissional ser preservada. (ZIMERMAN, 1999; GONÇALVES, 2014). Além do que o olhar sobre o analista e suas emoções é justificado pela notável influência na psicodinâmica terapêutica, dada a importância de amplificar seu espaço mental e a possibilidade de adentrar sobre a realidade psíquica do seu paciente. (ELIAS DE SOUZA; CAMPOS, 2014). Assim, mediante as transferências inconscientes do paciente, o analista ao verificar a sua contratransferência se posiciona de maneira consciente a tais conteúdos. (LEITÃO, 2012).
Por se entender que a análise tem um papel fundamental na vida do analisando em sofrimento. Cabe ao analista prover os recursos necessários para que tal processo aconteça na íntegra, mesmo no enfrentamento de demandas do paciente relacionadas “ataque, desinvestimento, ruptura ouintrusão, capazes de tornar inoperante a funçãode continência e sustentação do analista”. Ainda assim, cabe ao terapeuta verificar tais conteúdos e agir de maneira que não fira a ética profissional, muito menos rompa a dinâmica terapêutica. Para tanto, é fundamental que o profissional que atua na clínica psicanalítica deve estar provido de subsídios que direcionem sua prática, assim é fundamental uma boa formação, fundamentada sobre o tripé da teoria, supervisão e análise pessoal. (ELIAS DE SOUZA; CAMPOS, 2014, p. 130).
Por fim, entende-se que é fundamental que a sensatez do profissional de psicologia, o direcione a verificar o modo como utilizará a da contratransferência como ferramenta, pois é ele quem direciona o processo psicoterápico ao sucesso ou declínio, cabendo-lhe resguardar a sua credibilidade e preservar a ética profissional.
REFERÊNCIAS
ELIAS DE SOUZA, Julia Girnos; CAMPOS, Erico Bruno Viana. A contratransferência e a importância das capacidades do analista na prática psicanalítica contemporânea-DOI: http://dx. doi. org/10.15600/2236-9767/impulso. v24n60p123-132. Impulso, v. 24, n. 60, p. 123-132, 2014. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/impulso/article/view/1724/1303>. Acesso em: 01 outubro 2015.
FREUD, S. O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. Ed. Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. Obras completas. Volume XII.
FREUD, S. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Ed. Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. Obras completas. Volume VII.
GONÇALVES, Thomás Gomes. Desafios da escuta e a ética da contratransferência. Revista Espaço Acadêmico, v. 14, n. 157, p. 82-89, 2014. Disponível em: <http://eduem.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/ article/view/ 2 2 782/13136>. Acesso em: 01 outubro 2015.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand.Vocabulário da Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LEITÃO, Leopoldo Gonçalves. Contratransferência: Uma revisão na literatura do conceito. Análise Psicológica, v. 21, n. 2, p. 175-183, 2012. Disponível em: <http://publicacoes.ispa.pt/publicacoes/index.php/ap/article/view/32/pdf>. Acesso em: 01 outubro 2015.
PEREIRA, Jeferson; DA SILVA, Juliano Correa. Contratransferência erotizada: o estudo dos sentimentos originados no terapeuta por uma bela paciente. Unoesc & Ciência-ACBS, v. 5, n. 2, p. 151-156, 2014. Disponível em: <http://editora.unoesc.edu.br/index.php/acbs/article/view/5233/pdf_63>. Acesso em: 01 outubro 2015.
WINCK, Patrícia. As faces do amor na psicanálise. 30 f. Monografia (Graduação). 2014.UNIJUÍ–Universidade Regional do Noroeste do estado do Rio Grande do Dul. DHE–Departamento de humanidades e educação curso de psicologia, Ijuí.Disponívelem: <http://bibliodigital.unijui.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/2124/TCC_AS%20FACES%20DO%20AMOR%20NA%20PSICANALISE.pdf?sequence=1>. Acesso em: 01 outubro 2015.
ZAMBELLI, Cássio Koshevnikoffet al. Sobre o conceito de contratransferência em Freud, Ferenczi e Heimann, 2. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pc/v25n1/12.pdf>. Acesso em: 01 outubro 2015.
ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.
ZUANAZZI, Ana Carolina; SEI, Maíra Bonafé. Psicoterapia familiar psicanalítica: reflexões sobre os fenômenos transferenciais e contratransferenciais em um serviço-escola de psicologia. Vínculo, v. 11, n. 1, p. 16-24, 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/vinculo/v11n1/n1a04.pdf. Acesso em: 01 outubro 2015.
Autora do Artigo: Leopoldina Veiga Guimarães
Obrigada pela visita, volte sempre!

0 Comentários