Psicóloga
Leopoldina Guimarães
A metáfora da
transformação por meio da psicoterapia será apresentada neste artigo. Para
tanto, após o consentimento de uma ex-paciente, aqui denominada “borboleta”, para preservar sua
identidade, relataremos a importância da psicoterapia na promoção da saúde
mental e bem-estar emocional.
Metamorfose,
etimologicamente, vem da palavra grega metamórphosis
que significa mudança, transformação, alteração, transmutação. É formada
por duas palavras: meta, que
significa além, e morpho, cujo
significado é forma (DICIONÁRIO ONLINE PORTUGUÊS, 2020). Na biologia se
refere a uma mudança geralmente ligeira e intensa na forma, estrutura, natureza
e hábitos que ocorre no ciclo vital de alguns animais, como por exemplo, a
transformação da lagarta em borboleta (MICHAELIS, 2015; FERREIRA, 2018). Este
processo divide-se em três fases diferentes denominados: pupa,
crisálida e casulo:
É chamada
pupa, a fase em que os insetos se reservam para sofrer metamorfose. As borboletas
tem um nome especial para a fase de pupa, são chamadas de crisálidas. O casulo,
propriamente dito, é quando as lagartas tecem uma cobertura de seda, auxiliada,
muitas vezes, por folhas, gravetos e até pedrinhas, que serve para protegê-las
de seus inimigos durante o período de pupa. Dentro do casulo, encontra-se a
crisálida, que, como já dito, chamamos a fase de pupa das borboletas (SANTOS,
2018, p. 163).
A borboleta simboliza
beleza, liberdade, felicidade, evolução. Especialmente na psicanálise moderna, traz
o simbolismo de renascimento. “O termo grego psyche tinha originalmente dois significados. Um era a alma, e o
outro borboleta, que simbolizava o espírito imortal. Na mitologia grega a
personificação da alma é simbolizada por uma mulher com asas de borboleta” (DOJAS
et al., 2008, p. 3).
Analogicamente a
psicoterapia permite processos semelhantes ao da lagarta em borboleta. Cada
paciente vivencia o processo psicoterapêutico de maneira diferente, podendo a
duração e evolução do tratamento oscilar de paciente para paciente. As técnicas
psicoterápicas utilizadas também variam, mas a abordagem utilizada com a
referida paciente foi a psicanalítica. Os atendimentos aconteceram uma vez na
semana, com duração entre 45 a 50 minutos cada sessão. O processo psicoterápico
durou cerca de 6 meses, trazendo resultados efetivos na vida da nossa “borboleta”.
Não enfatizaremos aqui
um estudo de caso da paciente, mas um relato favorável sobre os seus ganhos no
decorrer do tratamento psicoterápico, apresentado trechos do seu depoimento. Lembro-me
que na penúltima sessão, a paciente foi informada que receberia alta na próxima
sessão, o que a levou a escrever os resultados do seu processo de mudança na
despedida do tratamento. Deste modo ela iniciou seu relato da seguinte forma:
“A dor não é sentida apenas num corte de pele, a dor
é sentida também dentro de nós, em vários cortes, feitos das mais diversas
formas.
A dor de fantasiar um mundo inexistente, mas ao
mesmo tempo é o mais existente, afinal sua dor precisa de um escape, e que tal
a fantasia?
Mas a fantasia dói, afinal de contas ela não existe
e dificilmente existirá. Crescer dói e então, por que querer crescer?
[...] crescer dói, lembra?”(BORBOLETA, 2018).
Desde o início do
texto, ela relembrou quando iniciou o seu tratamento, relatando especialmente que
a dor da sua alma ia além de qualquer dor física. Ela mencionou alguns dos seus
mecanismos de defesa identificados no decorrer do tratamento, bem como o próprio
processo de crescimento emocional, que apesar de ser dolorido é também
necessário.
Como nas fases de
transformação de uma borboleta, psicologicamente falando, a nossa “borboleta” sentiu os apertos e a
escuridão do casulo no percurso da psicoterapia, até vivenciar a mudança que
ela mesma se propôs a alcançar. Assim, na sessão em que recebeu sua alta ela
escolheu um poema que representou muito bem a sua transformação “As
Borboletas”, de Vinícius de Moraes, publicado em 1970:
‘Brancas, azuis, amarelas
e pretas
Brincam na luz as belas borboletas.
Borboletas brancas são alegres e francas.
Borboletas azuis gostam muito de luz.
As amarelinhas são tão bonitinhas!
E as pretas, então... Oh, que escuridão!’ (BORBOLETA, 2018).
Brincam na luz as belas borboletas.
Borboletas brancas são alegres e francas.
Borboletas azuis gostam muito de luz.
As amarelinhas são tão bonitinhas!
E as pretas, então... Oh, que escuridão!’ (BORBOLETA, 2018).
Ao ler este poema,
nossa borboleta apresentou sua
vivência psicoterápica nos meses que decorreram as sessões. Ela mencionou ainda suas dores, angústias,
ansiedades, fantasias e “os cortes feitos na alma”, por meio da obra do poeta
Vinícius de Moraes. Assim, ela modificou a ordem do poema, colocando-o da
seguinte forma:
‘E
as pretas, então... Oh, que escuridão!
As
amarelinhas são tão bonitinhas!
Borboletas azuis gostam muito de luz.
Borboletas azuis gostam muito de luz.
Borboletas
brancas são alegres e francas.
Brancas, azuis, amarelas e pretas
Brincam na luz as belas borboletas’ (BORBOLETA, 2018).
Brancas, azuis, amarelas e pretas
Brincam na luz as belas borboletas’ (BORBOLETA, 2018).
Para que qualquer
borboleta voe em direção à liberdade, faz-se necessário vivenciar a
transmutação. A lagarta que adentra no setting
terapêutico em busca de metamorfose, desde o momento do enquadre até a tão
sonhada alta, deve permitir-se ser transformada em uma linda borboleta “[...] até
que a borboleta saia de seu casulo e conquiste sua liberdade, sendo essa uma
representação simbólica da alma e do corpo, respectivamente.” (COSTA, SOARES, 2015, p. 640).
Deste modo, nossa “borboleta” alçou novos horizontes,
permitindo-se sair do casulo, entendendo que a psicoterapia pode ser uma grande
aliada nesse processo. “Terapia é isso,
sair do casulo e entender que podemos brilhar. Terapie-se e mude!” (BORBOLETA, 2018).
Vale pontuar que o
psicoterapeuta deve ter um olhar ético em todos os estágios do tratamento, especialmente
quando observar que o paciente já dá conta das suas demandas emocionais, de
maneira a não segurar o paciente por questões financeiras. É preciso avaliar
eticamente o caso, reconhecendo o momento certo de conceder alta ao paciente. Se
a borboleta está preparada para enfeitar belos jardins, por que mantê-la no
casulo?
O processo de mudança,
como na metamorfose da borboleta, por vezes é dolorido, contudo é necessário.
Experimente a escuridão do casulo e fortaleça suas asas para voos mais altos.
Encare seus temores, vença novos desafios e inicie o processo de mudança. Só
assim você enfeitará novos jardins com o colorido do seu bem-estar.
REFERÊNCIAS
COSTA, M. F.; SOARES, J. C. Livre como uma borboleta:
simbologia e cuidado paliativo. Revista Brasileira de Geriatria e
Gerontologia, v. 18, n. 3, p. 631-641, 2015. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rbgg/v18n3/1809-9823-rbgg-18-03-00631.pdf>.
Acesso em: 05 jun. 2020.
Dicionário Online Português, 2020.
Disponível em: < https://www.dicio.com.br/metamorfose/>. Acesso em: 13
maio 2020.
DOJAS, J. B. et al. Cenários de aprendizagem integradora:
experiências com as rodas de diálogo.159f. Dissertação de mestrado. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.univates.com.br/revistas/index.php/destaques/article/view/1459>.
Acesso em: 05 de jun. 2010.
FERREIRA,
A. B. H. Dicionário da
Língua Portuguesa. Ed. 2. Rio de Janeiro: Positivo, 2018.
MICHAELIS.
Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Melhoramentos, 2015.
SANTOS, D. S. A metamorfose da borboleta. Revista Com
Censo: Estudos Educacionais do Distrito Federal, v. 5, n. 2, p. 157-164,
2018. Disponível em:
<http://www.periodicos.se.df.gov.br/index.php/comcenso/article/view/372/293>.
Acesso em: 05 jun. 2020.

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