Autora: Leopoldina Veiga Guimarães Ferreira
Um dos espaços que mais tem se
destacado como cenário do espetáculo são as Redes Sociais de Internet (RSI), por meio das quais virtualmente
as pessoas vivenciam o simulacro. Para que haja um maior esclarecimento sobre
esta realidade é importante destacar, primeiramente, alguns aspectos históricos
relevantes.
Os meios de comunicação, ou
mídia, ao longo da história têm-se tornado indispensáveis para a compreensão da
sociedade contemporânea, pois é através do destes avanços tecnológicos que
foram articulados o telefone, o televisor e o computador, originando uma “nova
máquina da comunicação, interativa, fundada nas proezas do tratamento digital”.
(BANDINELLI; NEUTZLING; GUARESCHI, 2010, p.
1523). É importante mencionar que, no
contexto tecnológico, o que se destacou nas últimas décadas foram as RSI.
Retomando a sua trajetória, é válido pontuar que a primeira rede de
computadores interligados do mundo foi criada por militares americanos, em
1969, para ser utilizada na troca de informações no período da Guerra Fria.
Posteriormente, não somente o nome da rede mudou para Internet, como também sua função, passando a comunicar, interligar
e informar pessoas em todo o mundo. Assim, a internet cresce aceleradamente, sendo na atualidade o meio de
comunicação mais utilizado mundialmente. (MORAES; PILATTI; SCANDELARI, 2005).
No cenário brasileiro, Benakouche (1997) aponta que o uso da internet expandiu-se inicialmente devido medidas comandadas pelo
próprio poder público das telecomunicações. Assim, esta iniciativa é datada de cerca
de 38 anos atrás. É importante mencionar que na época este setor buscava apenas
superar o enorme atraso em que se encontravam os serviços de telecomunicações
nacionais, atendendo a duas grandes finalidades: a ordem estratégico-militar,
uma vez que neste contexto se aspirava à segurança nacional; e as motivações de
ordem econômica, partilhadas, sobretudo, pela ala nacionalista do governo, que
sonhava com um Brasil potente. Destarte, as inovações tecnológicas eram vistas
pelos representantes como oportunidades para o desenvolvimento da indústria
local de telecomunicações, bem como uma oportunidade para a criação de uma estrutura
nacional de Pesquisa e Desenvolvimento. Neste sentido, Aguiar (2006 apud Aguiar, 2007, p.2) afirma que no
cenário brasileiro as Redes Sociais de Internet
(RSI), desde 1990, despertaram interesses meramente acadêmicos, por meio
dos quais se investigava “as novas formas associativas e organizativas que
emergiram dos processos de resistência à ditadura militar”, as formas de
redemocratização, o novo contexto da economia globalizada e questões voltadas
para o desenvolvimento sustentável. Mas a década de 90 foi marcada pelo temor,
um grande risco, o medo das pessoas assumirem sua real identidade em
determinadas situações circunstâncias, preocupação esta que, na atualidade, se
dissipou, tornando-se uma prática quase que natural.
As RSI são frutos da própria dinâmica social criadora, instituída e
inserida na sociedade contemporânea, não somente um instrumento de elaboração,
armazenamento e transmissão de informação. Benakouche (1997) ainda aponta a
rapidez como o traço mais evocado para caracterizar a expansão da Internet e, por extensão, as
transformações que seu uso vem causando nas práticas sociais contemporâneas.
Este recurso é utilizado com as mais diversas finalidades por pessoas do mundo
inteiro. Viana (2010) apontou o número de usuários no Brasil, México e Espanha,
destacando que no Brasil os usuários de internet
são (36%) da população, já no México 63% e na Espanha 56% de pessoais usando
esta ferramenta. Dentre as faixas etárias que mais se destacaram foi 64% dos
usuários de RSI estão entre as idades de 26 a 50, com uma idade média de 34
anos. Esta percentagem é mais elevada em Espanha, onde 76 % faz uso. Quanto ao
gênero que se destaca, na Espanha e México o uso de redes sociais é maior entre
homens e no Brasil o gênero feminino se destaca. Conforme esta pesquisa,
usuários de RSI utilizam-na com a finalidade principal de manter contato com
familiares e amigos. Em segundo lugar encontra-se a utilização da internet para fins de trabalho e
jornais, e terceira a leitura e revistas.
Quanto aos hábitos dos internautas
os dos espanhóis diferem em vários fatores aos hábitos dos brasileiros e
mexicanos, especialmente os relacionados à multiplicidade de acesso à Internet. Na Espanha se utiliza mais
para fins de trabalho, formação, informação, comércio e entretenimento. No
México, 52% dos entrevistados evidenciaram interesse em manter relacionamentos
virtuais com pessoas de outras línguas, culturas e países e 49% dos brasileiros
mostraram a mesma característica intercultural mediada pela internet.
Essa interação social virtualizada, que atravessa fronteiras, tão defendida pela globalização vigente, ao mesmo tempo em que aproxima diferentes povos, distancia pais e filhos, cônjuges, irmãos e amigos. Os relacionamentos interpessoais estão se tornando cada vez mais escassos e vazios. Não há mais tempo para se desenvolver relacionamentos reais, não se faz mais rodas de conversas presenciais, não se almoça mais junto, não se sai mais para um passeio em família, pois tudo gira em torno da “rede” e caso não se esteja dentro dos padrões estabelecidos por ela, se é taxado de cafona ou “desconectado”, mesmo que esta escolha represente o afastamento do mundo fantasioso no usufruto do direito de preservação da própria identidade, ou simplesmente tomada a fim de se resguardar dos relacionamentos coletivizados.
A vivência em rede, então, tece a direção que
o usuário deve seguir. Viana (2010) advoga que o ciberespaço como lugar de
interação social é um espaço paralelo em que são evidenciados novos sentimentos
de convívio, interesses comuns, afinidades, incorporando regras específicas de
etiquetas, favorecendo desta feita a integração entre pessoas de diferentes
culturas e países diferentes. O que é de certa forma acordado por Aguiar (2007,
p.2), ao mencionar que tais relações “são, antes de tudo, relações entre
pessoas, estejam elas interagindo em causa própria, em defesa de outrem ou em
nome de uma organização”. E é neste contexto, que este mesmo autor caracteriza as principais formas de redes e seus
respectivos usuários, tais como: os usuários das redes sociais informais
– que mantém suas relações entre familiares, comunidades, amigos, trabalho,
estudo, militância entre outros, atendendo as demandas das subjetividades, das
necessidades e das identidades momentâneas; a outra constituição é a forma
intencional – que pode ser promovida individualmente ou de forma grupal, desde
que tenham poder de liderança, articulando outras pessoas a objetivos, projetos
e interesse comuns, representando assim, associações, movimentos, comunidades,
empresas entre outros; um terceiro elemento são as RSI multimodais ou plurais,
formadas por pessoas e atores sociais; e, por fim, as redes organizacionais ou
interorganizacionais nas quais seus participantes operam apenas em nível
institucional. Deste modo, Tomaél, Alcará e Di
Chiara (2005), afirmam que é o próprio ser humano quem propaga a
expansão da rede e o seu delineamento, pois é ele quem se agrupa e estabelece
relações com seus semelhantes, dento da sua conjuntura social.
Todo este progresso midiático tornou-se
então, uma ferramenta indispensável na vida do ser humano. Entretanto, apesar
de inovador e indispensável, tem proporcionado mudanças significativas na vida
do indivíduo, especialmente nos novos parâmetros culturais e estéticos
inovadores (RODELLA, 2005), trazendo como resultado a ficção, a fantasia, a
performance. Barton (2008, p. 80) menciona que este ambiente é estabelecido por
meio de uma força física da intenção promulgada como uma reivindicação
denominada por ele com “in-between”
(expressão que poderíamos compreender como “em cima do muro”) do estabelecido,
dos usos convencionais e entendimentos de espaço, tempo e atenção. É um espaço
múltiplo, fragmentário, de interrupção simultânea, luxação, ambiguidade; ainda
que para os que estão presos ao espaço de cultura midiática, provavelmente não
seja visto como um espaço de desorientação ou ambivalência. Muito pelo
contrário, é visto como um espaço “mystory”
(minha história), sendo considerado como íntimo.
Uma intimidade teoricamente
performativa é um em que os critérios básicos identificam-se através de várias
definições de intimidade — uma vontade de se auto divulgar; atenção completa,
positiva e mútua; abertura ao contato físico e conexão; entendimento
compartilhado — é valorizado e perseguido fora do contexto dos contratos
estendidos de estéticos, corporativos ou emocionais. É uma intimidade que
baseia a desvalorização — até mesmo a rejeição — de fictícia, temática e
previsibilidade organizacional e de familiaridade. (BARTON, 2008, p. 82).[2]
O perigo está em que, mesmo se buscando relações de intimidade, a
intermídia é um espaço onde
relações íntimas são impossíveis, pois diferentemente das relações presenciais,
não contam com continuidade, consistência, duração e clareza comunicativa e
confiança. (BARTON, 2008). Rosso (2003) aponta que o uso desta ferramenta
exerce modificações positivas e negativas na vida do internauta, sendo que as transformações positivas podem amplificar
os relacionamentos interpessoais, e, contrariamente, as negativas podem desencadear
inúmeras patologias ao indivíduo. Nesta direção,
Moraes, Pilatti e Scandelari (2005, p. 2456) alertam que, apesar dos grandes
benefícios gerados pela internet, é
necessário que o usuário deste instrumento esteja atento quanto aos possíveis
perigos que o seu mau uso pode fomentar; portanto, efeitos colaterais do uso excessivo deste
meio de comunicação social podem gerar o distanciamento das relações humanas
reais, além de atingir outros contextos nos quais o indivíduo está inserido,
afirmando que o uso abusivo das RSI está promovendo “uma categoria de pessoas
solitárias” que buscam refúgio nessa rede, “perdendo o interesse pelos afazeres
e prazeres do mundo real”, e consequentemente gerando problemas conjugais,
sociais, físicos e declínio da produtividade no trabalho.
Estes problemas desencadeados pelas RSI são
gerados pela própria velocidade de alcance. Bauman (2008) menciona que esta
velocidade pode ser comparada a um vírus que contagia a sociedade com uma
velocidade extrema, em que os infectados partilham informações pessoais
mediados pelo espírito frenético da coletividade.
Uma vez que finquem seus pés numa escola ou numa comunidade, seja ela
física ou eletrônica, os sites de
‘rede social’ se espalham à velocidade de uma ‘infecção virulenta ao extremo’.
Com muita rapidez, deixaram de ser apenas uma opção entre muitas para se tornarem
o endereço default de um número crescente de jovens, homens e mulheres.
Obviamente, os inventores e promotores das redes eletrônicas tocaram uma corda
sensível – ou num nervo exposto e tenso que há muito esperava o tipo certo de
estímulo. Eles podem ter motivos para se vangloriar de terem satisfeito uma
necessidade real, generalizada e urgente. E qual seria ela? ‘No cerne das redes
sociais está o intercâmbio de informações pessoais’. Os usuários ficam felizes
por ‘revelarem detalhes íntimos de suas vidas pessoais’, ‘fornecerem
informações precisas’ e ‘compartilharem fotografias’. (BAUMAN, 2008, p. 8).
O
interessante é que os inventores das RSI, ao alcançarem seu objetivo,
desprezaram o real pelo imaginário. Neste cenário, ninguém mais sofre, pois a
felicidade é exposta através de imagens, mesmo que elas sejam falseadas.
Goffman (2002), um dos sociólogos mais importantes do século XX, identificou neste cenário a existência de
uma espécie de Dramaturgia Social na qual o indivíduo vive em constante simulacro,
desempenhando papéis muitas vezes cômicos, mas dignos dos aplausos sociais.
Essa dramaturgia seria a representação
teatral, na qual o self[3] é apresentado socialmente pelo usuário das
RSI como um simples script a ser seguido metodicamente, abdicando-o de
qualquer crítica ou renúncia.
Na senda da perspectiva deste sociólogo, em uma
leitura mais recente, Araújo e Costa
(2014, p. 35) mencionam que “a interação social assemelha-se a uma
encenação, podendo tomar rumos diversos, de acordo com roteiros preestabelecidos
e socialmente partilhados”. Deste modo, o indivíduo atua de maneira
dramatúrgica e discursiva através de suas máscaras, podendo até ele mesmo
convencer-se ou não da própria atuação.
Neste ambiente virtual no qual a atuação torna-se cada vez mais comum é
possível criar avatares, falsos perfis, uma personalidade irreal. Na verdade, o
que mais assusta é que dificilmente se apresenta a real personalidade - o que
de certa forma pode se tornar preocupante por não se verificar a realidade por
trás dos bastidores destes ambientes, nos quais as pessoas convivem com
múltiplos contatos e os usuários podem gerenciar informações particulares, da
forma que lhes convier. Entretanto, “parece ser bastante complexo ter um nível
tão grande de controle e organização para acompanhar as mudanças da interface e
manter o grande número de ‘amigos’ vendo apenas o que se deseja mostrar para
cada um”. (DE LIMA BRANDÃO, 2013, p. 2).
Nesse espaço virtual, é o próprio usuário quem define sua situação
apresentando o self que deseja que as
pessoas vejam, omitindo ou apresentando informações a um público por ele
selecionado. Nos palcos do ciberespaço
se representa o que quer, para um público seleto, e assim os relacionamentos
tornam-se mais e mais frios, enfraquecidos, pois o que importa é desenvolver a
arte da representação. (DE LIMA BRANDÃO, 2013).
As redes sociais são palcos onde o ator está constantemente monitorado
pelas várias equipes das quais faz parte. Neste ambiente não é possível
considerar apenas uma definição de situação ou agir como se o indivíduo
estivesse sempre no palco ou sempre nos bastidores. As redes sociais podem
criar novos laços, possibilitam conhecer pessoas de outros países, mas também
podem oferecer provas de traição para o término de casamentos, enfraquecer
amizades e abalar a confiança em um funcionário. (DE LIMA BRANDÃO, 2013, p.
11).
Em meio a este caos Bauman (2008) tece sua
crítica a esta forma de relação pontuando que os relacionamentos sociais
virtuais estão substituindo os reais, e a consequência disto é a perda da
habilidade e capacidade de socialização. Assim, a cultura consumista exibe sua
imagem, buscando incessantemente um falso status,
cultivando uma identidade imprópria e assumindo novas configurações
mercadológicas instituídas pelas próprias demandas sociais, e faz com que a
identidade se torne mera mercadoria em constante busca pelo seu próprio eu. Outra crítica muito pertinente vem de
Santaella (2013, p. 33) ao mencionar que as mudanças provocadas pelo processo
digital (internet) em todos os campos
sociais seriam “verdadeiros abalos sísmicos” em todos os ambientes em que
circulam, especialmente na economia, política, cultura e arte. Desta forma, ela
pontua:
Saber o que fazemos com as redes sociais digitais não é tão importante
quanto saber o que as redes estão fazendo conosco. O que estão fazendo com a
nossa subjetividade e sociabilidade, com a nossa memória, com as nossas
expectativas, anseios e desejos, o que estão fazendo com nossos modos de
receber informação, de nos darmos conta dos fatos, de adquirir conhecimento, de
perceber e representar o mundo, enfim, o que estão fazendo com os nossos
processos de aprendizagem e, possivelmente, com as nossas maneiras de ensinar e
educar. (SANTAELLA, 2013, p. 34).
Mais do que uma simples reflexão sobre de que maneira se utiliza esta
ferramenta, faz-se necessário compreender o que ela está fazendo com os seus
usuários, pois no ciberespaço as identidades não são simplesmente
transformadas, mas possibilitam que os internautas se reinventem, brinquem de
ser alguém, joguem patologicamente até o extremo de transmutar, e metamorfosear
sua real identidade. Assim, são manipulados como se fossem marionetes,
transformando suas subjetividades de forma passiva, isolada e silenciosa, para
uma subjetividade ativa. O usuário das RSI cria, então, uma identidade digital
na qual assume várias identidades e vivencia os mais diversos papéis,
fantasiosos, imaginativos, narrativos e fictícios, passando naturalmente a
conviver com presença digital de pessoas, afastando-se da importância do
convívio presencial. (SANTAELLA, 2013).
Alimentando esse desconhecimento, encontram-se as miragens do ego
unificado. É por isso que, quando se critica a multiplicação das bolhas
identitárias, na realidade, o que fica falsamente presumido é a separação
nítida entre uma realidade, fora do ciberespaço, habitada por sujeitos unos e a
realidade simulada do ciberespaço, na qual proliferam identidades múltiplas.
Ora, uma tal separação só pode ser sustentada sobre a ignorância de rupturas
das tradicionais noções de sujeito, subjetividade e identidade, que datam de
mais de um século. (SANTAELLA, 2013, p. 40).
Esta escritora menciona ainda que mediante estes novos tipos de
relacionamentos digitais os laços mais observados são fragilizados, tênues,
fracos, e raramente os laços fortes são estreitados. “O modo como interagimos
na vida online e off-line é bastante diferente”, diz ela. Os laços cultivados na
vida online tendem a se desfazer e
refazer a todos os instantes, enquanto que os relacionamentos fortes são mais
saudáveis e duradouros. (SANTAELLA, 2013, p. 44). O mesmo é pontuado por Viana
(2010), que considera que, sendo as RSI responsáveis por inúmeras mudanças
instantâneas, os seus usuários correm o risco de criar uma identidade arte digital,
ou até mesmo assumirem várias identidades ou funções irreais no exercício da
fantasia, imaginação ou novos tipos de narrativa e ficção, passando a assumir
uma identidade meramente digital sem se dar conta da realidade, habituando-se à
realidade falseada e as exigências que não são semelhantes à coexistência
convencional. Desta forma, a identidade digital impossibilita o indivíduo de
ter atitudes simples, como, por exemplo, tomar um café pessoalmente com uma
pessoa, pois a impossibilidade de se chegar a ir para um café quando um tem uma
lista de contatos e três mil pessoas em diferentes partes do planeta demandando
atenção torna esta simples atitude impossível. E seguindo este mesmo
pensamento, Goffman (2002), que anteriormente já propunha uma Dramaturgia
Social nas RSI mencionando o constante simulacro da interação virtual face a
face, menciona que neste espaço apenas se mantém relacionamentos de
sociabilidade, deixando a interação social real adormecida ou até mesmo
esquecida.
É notável a influência destes instrumentos (Redes Sociais de Internet) nos processos de subjetivação,
segundo a visão de Guattari (1992), por serem nesses ambientes onde se aplicam
as práticas sociais; assim, tais ferramentas estão operando no que ele denomina
como núcleo da subjetividade humana, falseando ou dando um novo sentido à
subjetividade. A mesma conclusão é encontrada por Araújo e Costa (2014) quando
mencionam que as RSI influenciam e transformam notavelmente os processos
subjetivos, de maneira que os usuários dessas redes se tornam dependentes das
relações teatrais exacerbadas nesse contexto. A dificuldade é que, ao sair
deste cenário e se deparar com a realidade, o internauta tende a enfrentar
sérias dificuldades em assumir o seu real papel. Deste modo, ao vivenciar estas
duas proposições o indivíduo não tem como desenvolver uma subjetividade genuína
e singular, uma vez que fica desprovido da autonomia para desempenhar os seus
próprios papéis, buscando formas subjetivas coletivizadas.
Esta subjetividade socializada (intersubjetividade) faz parte das configurações na contemporaneidade, na qual o indivíduo busca novas representações comunicadas com o outro, de maneira que o que lhe é próprio perde o valor. Carrera (2012) menciona que a representação de um ethos[4] nas RSI estaria estritamente vinculada ao consumo, apelando para a materialização propulsora de significantes satisfatórios. Assim, o objeto adquirido traz consigo significantes sociais comunicados entre os atores deste cenário subjetivo compartilhado.
Os sujeitos muitas vezes buscam a sua posição social a partir da crítica
à situação vigente e, consequentemente, a partir da criação de outra que
transforme a estrutura dos sentidos. Desse modo, o desvio é também uma forma de
distinção, uma vez que se vale do mesmo sistema, mas o subjetiviza, não pelo
desconhecimento, mas pelo desejo da questão desafiadora. (CARRERA, 2012, p.153-154).
O que chama a atenção nesta leitura não é simplesmente o
compartilhamento de experiências superficiais através de objetos adquiridos,
mas negociação da subjetividade, como se esta fosse desprovida de valor,
direcionando a maior importância a imagem representativa. Assim “o papel da
plateia para o sucesso da representação é essencial”, pois é ela própria quem
torna legítima a “imagem construída, do ethos desejado”. (CARRERA, 2012,
p.157). Neste sentido, os comentários postados ao público no facebook, por exemplo, são o que
validará ou não a fachada[5] ali
exibida pelo ator. Assim, a figura do outo é essencial, uma vez que é ele quem
proporciona a legitimação da imagem construída neste contexto em que o
indivíduo existe de maneira colaborativa. Deste modo, mediante o posicionamento
do outro, o ator das RSI exercita suas características e práticas costumeiras
almejadas. Entretanto, sem a participação do interlocutor, tanto a identidade
quanto os papeis representados não se tornam válidos nesta forma de interação.
(CARRERA, 2012).
Carrera (2012) menciona ainda que no desempenho teatral o ator aprova ou
não o conteúdo postado pela plateia, curtindo ou excluindo os comentários,
bloqueando outros, preservando assim a sua “fachada”, uma vez que corre o risco
de sua “representação” ser desmascarada pela própria plateia, preservando o que
deseja mostrar de si. O que está em xeque é a probabilidade de ocorrer uma
“assicronia” na comunicação das RSI, além da promoção de “complexidades tanto
na construção do self quanto na manutenção da fachada”. (CARRERA, 2012,
p.158).
Fazer uso de dispositivos como o Instagram, portanto, e, além disso,
tornar públicas as suas fotos em sites
de redes sociais, são formas de reafirmar a construção da subjetividade como
uma prática social, na qual a colaboração do outro não só a influencia como é determinante
para a sua existência. No entanto, mais do que determinado pelo olhar do outro,
o self está em constante interação também com objetos e artefatos
tecnológicos que ajudam a guiar as suas opções identitárias, em um eterno
embate entre apropriação e reapropriação; entre obedecer a sua lógica funcional
e propor, através deles, novos caminhos.
(CARRERA, 2012, p.162).
Neste espaço virtual em que os aplausos da plateia são tão necessários
para se sentir alguém, o ator segue navegando, perseguindo o sucesso que só o
outro lhe pode conceder. Assim, em busca pelo brilho concedido pela plateia, o
seu brilho mais profundo, real, palpável, importante é esmaecido.
[1] Mientras Internet avanza con organizaciones sociales virtuales también
acelera sus pasos para la fase semántica donde todo y todos estarán reunidos de
forma más objetiva e integrada. En la fase actual nos toca observar los cambios
que ya acercan personas y refuerzan la comunicación entre distintos pueblos,
principalmente la colaboración y la creación colectivas. (VIANA, 2010, p. 33).
[2] A theoretically performative intimacy is one in
which the basic criteria identified across multiple definitions of intimacy—a
willingness to self-disclose; full, positive, and mutual attention; openness to
physical contact and connection; shared understanding—is valued and pursued
outside the context of extended aesthetic, corporate, or emotional contracts.
It is an intimacy predicated on the devaluation—even rejection—of fictional,
thematic, and organizational predictability and familiarity. (BARTON, 2008, p.82).
[3] Pode ser compreendido como
aquilo que define a pessoa em sua individualidade e subjetividade, isto é, sua
essência. (...) Além de representar um componente psicológico responsável pela
escolha e performance desses
papéis (encenações) e cuja existência só se materializaria
no exercício deles. (ARAÚJO;
COSTA, 2014, p. 36, 43).
Cabe pontuar que o
próprio termo, tal como utilizado nas RSI, mas apelidado carinhosamente no
diminutivo em inglês, o “selfie”,
significa tirar uma imagem fotográfica de si como protagonista em um cenário
qualquer, acompanhado ou não de outras personagens. Desta forma, “tirar uma selfie”, ao mesmo tempo que almeja reter
o momento para reproduzi-lo a outros anônimos espectadores desta dramaturgia
lacônica – senão muda -, significa fabricar a si mesmo numa situação
artificial, eternizando-a e tornando-a o esteio de toda a vida que pode ser
mostrada, ou que é digna de ser mostrada aos outros.
[4]
Ethos é uma palavra de origem grega,
cujo significado é morada do ser, da qual se derivou o caráter moral. Geralmente este termo é usado para
apresentar descrever hábitos ou crenças comuns em uma cultura, mas vale
ressaltar também o sentido maior de ethos,
em consonância a uma visão existencialista heideggeriana, que não diz
respeito às leis morais, mas ao Ser do homem; alude ao “lugar de morada, espaço
aberto onde habita o homem”. (HEIDEGGER, 1946, apud CORRÊA, 2001).
[5] Este termo foi empregado por Goffman (2002,
p. 29) para designar “um equipamento expressivo de tipo padronizado intencional
ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação”.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Sonia.
Mercado e comunicação na sociedade digital. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO INTERCOM, n. XXX, 2007,
Santos. Redes sociais na internet:
desafios à pesquisa. Santos:
Universidade Federal Fluminense, 29 de ago. a 02 de set., 2007. P. 1-15.
Disponível em: <http:
//www.sitedaescola.com/downloads/portal_aluno/Maio/Redes%20sociais%20naaa%
20internet-%20desafios%20%E0%20pesquisa>.pdf>.
Acesso em: 28 janeiro 2015.
ARAÚJO, Júlio; COSTA, Sayonara Melo. (Inter) subjetividade
nos estudos de redes sociais: dissolvendo fronteiras. Revista do GEL, São Paulo, v. 11, n. 1, p. 30-50, 2014. Disponível
em: http://revistadogel.gel.org.br/rg/article/view/193/275. Acesso em: 10 janeiro
2015.
BANDINELLI,
Lucas Poitevin; NEUTZLING, Janaína Soares; GUARESCHI, Pedrinho Arcides.
Biodiversidade na vida e diversidade do conhecimento. In: SALÃO DE
INICIAÇÃO CIENTÍFICA PUCRS, n. XI, 2010, Porto Alegre. Adicção midiática–compulsão à Internet.
Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 09 a 12 de ago., 2010. p. 1522-1526. Disponível em:
<http://www.pucrs.br/edipucrs/XISalaoIC/Ciencias_Humanas/Psicologia/83748LUCASPOITEVINBANDINELLI.pdf>.
Acesso em: 10 janeiro 2015.
BARTON,
Bruce. Subjectivity, Culture, Communications, Intermedia: A Meditation on
the" impure interactions" of Performance and the"
in-between" Space of Intimacy in a Wired World. Theatre Research in
Canada/Recherches théâtrales au Canada. Canadá, v. 29, n. 1, p. 51-92 2008.
Disponível em:
<http://journals.hil.unb.ca/index.php/TRIC/article/viewArticle/11136>.
Acesso em: 18 fevereiro 2015.
BAUMAN. Vida para o consumo: a transformação
das pessoas em mercadoria. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
BENAKOUCHE, Tamara. Redes técnicas/redes sociais:
pré-história da Internet no Brasil. Revista
USP. São Paulo, n. 35, p.
124 – 133, 1997. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/26923/28702>. Acesso em:
28 janeiro 2015.
CARRERA, Fernanda. Instagram no Facebook: uma reflexão
sobre ethos, consumo e construção de subjetividade em sites de redes sociais. Animus. Revista Interamericana de
Comunicação Midiática. Santa Maria, v. 11, n. 22, p. 148 – 165, 2012.
Disponível em: <http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/animus/
article/view/6850/pdf>. Acesso em: 20 fevereiro 2015.
CORRÊA, Raquel Wilma. A perspectiva ética da “Carta
sobre o humanismo” de Martin Heidegger. Metanoia.
São João del-Rei, n. 3, p. 51-59, 2001. Disponível em:
<http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/revistalable/numero3/raquel.pdf>.
Acesso em: 01 novembro 2015.
FREUD, S. Um caso de histeria,
três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Ed. Standard
Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. Obras psicológicas completas. Volume
VII.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana.
10 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. 1 ed. São Paulo: Editora 34
Ltda, 1992.
LIMA BRANDÃO, Ana Paula Daudt de. Comunicação e Criatividade: a Reinvenção das Mídias. In: POSCOM Seminário dos Alunos de Pós-Graduação em Comunicação Social, n. X, 2013, Rio de Janeiro. Facebook como palco: Goffman e a apresentação do self em redes sociais. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 04, 05 e 06 nov., 2013. P.1-12. Disponível em: <http://pucposcom-rj.com.br/wp-content/uploads/2013/11/Ana-Paula-Brand%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 20 fevereiro 2015.
MORAES, Gláucia T. Bardi de; PILATTI, Luiz
Alberto; SCANDELARI, Luciano. Os desafios da produção e distribuição no século 21;
Integração técnica e organizacional das cadeias produtivas. In:
ENCONTRO NAC DE ENG DE PRODUÇÃO, n. XXV, 2005, Porto Alegre. Comportamento patológico provocado pelo
uso indevido de internet: uma leitura no ambiente produtivo e social. Porto
Alegre: ABEPRO, 29 out. a 01 de nov., 2005, p. 2456-2462. Disponível em:
<http://www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP2005_Enegep0404_1351.pdf>.
Acesso em: 15 setembro 2015.
RODELLA, Cibele Abdo.
internet: um novo paradigma de informação e comunicação. Comunicação e educação. Maringá, v. 10, n. 01, p. 41 – 48, 2005.
Disponível em: <http://200.144.189.42/ojs/index.php/comeduc/article/viewFile/4917/4
731>. Acesso em: 20 setembro 2015.
ROSSO, Leila Urioste. O perfil
dos usuários da comunicação mediada por computador: uma abordagem psicológica.
2005. 113 f. Dissertação (Mestrado).
Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. São Paulo.
Disponível em:
<http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivophp?cod Arquivo
=36>. Acesso em: 20 outubro 2015.
SANTAELLA, Lucia et al. Intersubjetividade nas redes digitais: repercussões na educação. Interações em rede. Porto Alegre: Sulina, p. 33-47, 2013.
TOMAÉL, Maria Inês; ALCARÁ, Adriana Rosecler; DI
CHIARA, Ivone Guerreiro. Das redes sociais à inovação. Ciência da informação. Brasília, v. 34, n. 2, p.93-104,
2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ci/v34n2/28559.pdf/>.
Acesso em: 28 outubro 2014.
VIANA,
César et al. Redes sociales y
modelos de agencias ciudadanas de comunicación. 2010. 288 f. Tesis
(Doctoral). Departamento de Comunicación Audiovisual y
Publicidad II de la Universitat Autònoma de Barcelona. Bellaterra. Disponível em:
<http://ddd.uab.cat/pub/tesis/2011/hdl_10803_31809/cv1de1.pdf>. Acesso
em: 16 março 2015 .
Texto retirado da Monografia "O Espetáculo do Simulacro na Cultura Contemporânea",.
1 Comentários
The current paper aimed to offer an outline of the research so far as well as|in addition to} spotlight new and fascinating findings related to Internet playing addiction. A comprehensive evaluation of the existing literature was performed to offer an outline of serious trends and developments in research that pertains to disordered Internet playing. In the Nineties, when the World Wide Web was rising quickly in recognition, on-line playing appeared to characterize an end-run round government control and prohibition. A web site operator needed only to determine the enterprise in a pleasant 코인카지노 offshore jurisdiction such as the Bahamas and begin taking bets.
ResponderExcluir