CULTURA DO ESPETÁCULO E O CONSUMO COMPULSIVO

Autora: Leopoldina Veiga Guimarães Ferreira


O narcisista vive em constante busca pela contemplação e admiração do outro, forjando sua identidade. Ele precisa ser considerado grandioso pelo olhar do outro; este desejo muitas vezes se manifesta impulsivamente, de maneira que se torna capaz de tomar as mais diversas atitudes, representar os mais variados papéis, com a finalidade única de ser aplaudido pela plateia do espetáculo cultural.
Pensando em impulsividade, Jaspers (1985) define tais atos como os fenômenos que não são ou não podem ser contidos ou controlados pelo indivíduo. O indivíduo dominado pela ação impulsiva sente-se incapaz de resistir aos impulsos ou tentações de realização, mesmo que não esteja planejado ou que possibilite possíveis perigos, tanto para o outro, quanto para si.
Os atos impulsivos e compulsivos são fenômenos comportamentais produzidos pela própria alteração da vontade humana, tendo como característica a “precipitação e incapacidade de resistir à insatisfação do impulso”. Mesmo tendo consciência de que é correto tomar uma atitude diferente, o indivíduo é capaz de decidir-se contrariamente, sem elaborar qualquer tipo de planejamento, sem refletir sobre as consequências futuras. Já a compulsividade é caracterizada pela natureza opressiva que compele e constrange o indivíduo a realizar um ato repetitivo e estereotipado. (TAVARES, 2000, p.13). O que é acordado por Del-Bem (2005, p. 28), ao afirmar que a compulsividade pode ser expressa de várias maneiras, indo desde a incapacidade de planejamento do futuro, com o “favorecimento de escolhas que proporcionem satisfação imediata e sem levar em conta as consequências para si e para os outros, até a ocorrência de comportamento violento ou agressivo”.
Um dos ambientes onde a compulsão tem circulado à vontade é no cenário das RSI, como antes mencionado, no qual o internauta demonstra uma intensa dificuldade de autocontrole. Young (1996 apud Moraes; Pilatti; Scandelari, 2005) aponta a dificuldade do indivíduo em controlar seus impulsos nestes ambientes, sendo conduzido ao uso excessivo da Internet. Como consequência, podem advir os mesmos danos proporcionados por outras formas de dependência. Dentre eles, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 5 (DSM-5, 2014) aponta os transtornos que podem estar diretamente relacionados à impulsividade e compulsividade, tais como:
O Transtorno de Personalidade Borderline – no qual o indivíduo apresenta um padrão de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos com impulsividade acentuada; Transtorno de Personalidade Antissocial – no qual é apresentado um padrão difuso de desconsideração e violação de direitos de outrem proporcionando um alto grau de impulsividade; Transtorno obsessivo-compulsivo – é um transtorno mental caracterizado pela presença de obsessões como pensamentos, impulsos ou imagens indesejáveis e involuntários e compulsões; Compulsões – podendo apresentar-se através de atos físicos ou mentais; Transtornos relacionados como o dismorfismo corporal – que representa a preocupação excessiva com a aparência física; a tricotilomania – em que o indivíduo apresenta o comportamento de arrancar cabelos acentuadamente; Transtorno de Escoriação (Skin-picking) – comportamento de beliscar compulsivamente a própria pele; em alguns Transtornos Alimentares como a Anorexia Nervosa – na qual a pessoa preocupa-se exageradamente com o peso corporal, sendo acometida pela distorção da própria imagem, se enxergando sempre obesa, podendo exagerar na atividade física, jejuar, vomitar, usar compulsivamente laxantes e diuréticos; na Bulimia Nervosa - caracterizada pela ingestão recorrente e incontrolável de grandes quantidades calóricas, culminando na indução de vômitos, uso de laxativos e diuréticos, jejum prolongado e prática exaustiva de atividade física, cuja finalidade é evitar o ganho de peso; o Transtorno de Compulsão Alimentar – no qual o indivíduo ingere calorias em excesso, podendo estar relacionado à obesidade; ainda no Transtorno Explosivo Intermitente – no qual o indivíduo demonstra comportamentos explosivos recorrentes representando em uma falha de controle dos seus impulsos agressivos; na Cleptomania – no qual a pessoa é incapaz de resistir aos impulsos de roubar objetos desnecessários; na Piromania – obsessão por fogo; a dependência virtual de role playing-games – que se dá entre vários jogadores online, onde a pessoa cia uma personalidade virtual, o avatar (BLINKA; SMAHEL, 2011); e a dependência de jogos de azar na internet – atividade popular desenvolvida em diversas culturas, justamente pela acessibilidade que conduz o internauta a jogar cerca de 24 horas compulsivamente. (GRIFFITHS, 2011).
Todas estas configurações psicopatológicas podem se manifestar diretamente no indivíduo que é guiado pelo fascínio da impulsividade e compulsão. Entretanto, o olhar que norteia este capítulo direciona-se a compulsividade pelo consumo. Em “Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria”, Bauman (2008) ressalta uma característica marcante da sociedade contemporânea: a sua transformação e reducionismo em produtos mercadológicos, marcas de sua vendabilidade. Assim, na sociedade de consumidores há um afastamento do sujeito que defende sua subjetividade para vir a ser uma simples mercadoria projetada por um idealismo que é defendido economicamente pelo mercado do consumo.
Desta maneira, o próprio mercado seleciona os consumidores que lhes são atraentes, escolhendo aqueles julgados aptos e autorizados a atuar neste contexto de acordo com as necessidades que o mercado impõe e fazendo com que eles sigam compulsivamente as tendências atuais, cada vez mais modelados a adquirir produtos mais modernos. Mediante esta realidade, os consumidores-mercadorias se autopromovem, expondo a si mesmo como produtos, como vitrines móveis, para que desta forma não sejam vistos como mercadorias ultrapassadas; além do que, a vivência individual e social está fundamentada no presente, no instante e nas mais variadas intensidades e imediaticidade, regida pela sociedade contemporânea do que ele denominou de “agora”. Assim, esta transformação do próprio consumidor em mercadoria é fluida, e este busca incessantemente a satisfação pessoal através de produtos que, de fato, jamais satisfarão as suas necessidades, especialmente no que diz respeito aos aspectos emocionais; assim, este indivíduo passa cada vez mais a consumir indiscriminadamente, embora nunca chegue à satisfação. Esta realidade faz com que o consumidor líquido-moderno seja mobilizado, e ao mesmo tempo alienado pelo sistema capitalista, conduzido à associação de que sua felicidade e satisfação imediata devem ser estruturadas através da compra, descartando e substituindo produtos rapidamente através do processo de manipulação que parte do próprio consumismo capitalista. Então, consome exacerbadamente, sendo atraído pelas compras compulsivas num processo que não tem fim. (BAUMAN, 2008). Como situam Adorno e Horkheimer:

Os consumidores são os trabalhadores e empregados, os lavradores e os pequenos burgueses. A produção capitalista os mantém tão bem presos em corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 110).

              O consumidor segue então os parâmetros ditados pela produção capitalista e pela sociedade do consumo, sem se dar conta desta realidade. Bauman (2008) menciona que a cultura do consumo existente se formula na passagem de uma sociedade de produtores para uma de consumidores. Ele aponta que a subjetividade dos consumidores é manifesta quando o sujeito assume suas opções de compra. Por isso, na sociedade líquido-moderna na qual o consumismo é notavelmente exacerbado, o consumidor passa a adquirir produtos que satisfaçam as suas necessidades momentâneas, e estas perpassam as suas reais necessidades; desta feita, transformam-se a si mesmos em mercadoria, pois ao serem estimulados ao consumo impulsivo em adquirir artefatos momentâneos os descartam e os substituem na mesma proporção em que os adquirem; assim, o que é de fato necessário é descartado e o supérfluo usual o escraviza. A compulsão por compras conduz o indivíduo a ofertas mais abundantes e irresistíveis que o concedem a oportunidade de renascer constantemente, de modo que o ato de consumir se torna significativamente mais que um ato em si, torna-se um investimento na avaliação social pessoal, o que, numa sociedade de consumidores, traduz-se em vendabilidade. Além do que o espírito capitalista imperante na contemporaneidade, “inflama a busca pelo prazer individual através do consumo dos objetos”. (BUCIANO DO ROSÁRIO; DE OLIVEIRA MOREIRA, 2012, p. 84).
Em uma leitura recente, Santos (2012) menciona que na sociedade da comunicação ou cultura em que impera o capitalismo e se supervaloriza o material e os bens de consumo, tanto consumidores desprovidos do acesso aos bens quanto os que consistem em mercadoria  são impactados subjetivamente. Nesse itinerário, Adorno e Horkheimer (1985) já haviam alertado que os consumidores são reduzidos a um simples material estatístico, distribuídos em mapas de pesquisas em zonas vermelhas, verdes e azuis, perdendo de fato a sua essência tão significativa.  Estes autores ainda mencionam que todo o planejamento de consumo é fomentado pela indústria cultural, entretanto, é subsidiado pela própria sociedade performática, vista por eles como defeituosa no âmbito racional.

Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. (...) a violência da sociedade industrial instalou-se nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica, que desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho. (...) cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 104-105).

Adorno e Horkheimer (1985, p. 115) pontuam ainda que a indústria cultural permanece prometendo aos consumidores a diversão, e estes, por serem mediados pela diversão, são logrados por ela quando assinam “a promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e pela encenação”. Assim, o consumidor seduzido pelo deleite ofertado, vivencia o enredo prescrito pela indústria cultural como um simples ator deste espetáculo, deixando de exercer a sua real identidade. Destarte, a indústria cultural torna-se cada vez mais forte, implacavelmente desafiada a satisfazer as necessidades desses consumidores que permitem ser manipulados por ela, e prossegue produzindo, dirigindo, disciplinando, suspendendo ou concedendo a diversão do consumidor quando julgar necessário, pois é ela quem dita a ordem do dia. Neste contexto, o “divertir-se” ganha um novo significado: concordar. Por isso, quando o indivíduo persuadido por essa indústria, busca o isolamento do processo social em sua totalidade, torna-se um idiota que abandou princípios para ele significativos.

Divertir significa sempre: não se ter e pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é a sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da ultima ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação. O descaramento da pergunta retórica: “mas o que é que as pessoas querem?” consiste em dirigir-se às pessoas como sujeitos pensantes quando sua missão específica é desacostuma-las da subjetividade. Mesmo quando o público se rebela contra a indústria cultural, essa rebelião é o resultado lógico do desamparo para o qual ela própria educou. Todavia, tornou-se cada vez mais difícil persuadir as pessoas a colaborar. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 119).

Os autores seguem sua reflexão afirmando que mesmo a indústria cultural ao fazer poucas promessas, sem explicações concretas sobre o sentido da vida, difunde uma ideologia esvaziada e sem sentido.  Desta forma, ela alcança seu objetivo de coagir, dominar os instintos revolucionários, exercitar o indivíduo a vivenciar uma vida autorizada pelo seu poderio, tornando-se nulo, derrotado, acrítico, desprovido de respeito por si mesmo; então, a publicidade na indústria cultural triunfa subjugando o consumidor compulsivo aos seus próprios desejos. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). Segundo Campos e Souza (2003), o campo social desde muito cedo tem sido emoldurado por esta cultura na qual crianças e adolescentes trazem experiências cuja roupagem é totalmente centrada no consumo.

Nos dias de hoje, há cada vez mais a preponderância dos processos de consumo, fazendo com que os sujeitos sejam levados a identificar-se com coisas e objetos que os levam a diferenciar-se dos demais, como também a discriminar e hierarquizar grupos sociais. (CAMPOS; SOUZA, 2003, p. 15).

Estas mesmas autoras advogam que a promessa mercadológica é o “ideal de igualdade e liberdade”, o que significa que um grupo seleto pode consumir e outro grupo é excluído; no entanto, o discurso reforçado pela mídia apregoa a igualdade dos consumidores. Seduzido por este discurso, o consumidor - criança, adolescente, jovem ou adulto - se vê como colecionador, expositor, e ao ser capturado, consume produtos considerados inovadores, mas logo se dá conta do desvalor do objeto tão desejado. (CAMPOS; SOUZA, 2003, p. 15). Nesta mesma direção, o sociólogo Bauman (1999) pontua que:

A indústria atual funciona cada vez mais para a produção de atrações e tentações. E é da natureza das atrações tentar e seduzir apenas quando acenam daquela distância que chamamos de futuro, uma vez que a tentação não pode sobreviver muito tempo à rendição do tentado, assim como o desejo nunca sobrevive a sua satisfação. (BAUMAN, 1999, p. 86).

Na perspectiva deste mesmo autor, o fim do desejo pelo consumo pode ser considerado o mais sinistro dos horrores, tanto para os negociadores quanto para o consumidor ideal. E para que os produtos continuem escoando sem dificuldades os consumidores não podem cansar-se, ao contrário, devem estar sempre acordados, alertas, expostos as mais diversas tentações, e ao mesmo tempo demonstrar um sentimento ambíguo, a suspeita perpétua e insatisfação contínua. Entretanto, para que esta realidade aconteça, torna-se necessário que o consumidor se permita ser seduzido ou não, decisão esta que compete somente a ele próprio. (BAUMAN, 1999).
              Diante desta situação, na qual o consumidor se torna o produto a ser avaliado pela sociedade do consumo, o consumidor esmera-se em apresentar-se como tal, e segue sendo visto como a própria mercadoria: como membro da sociedade líquido-moderna, propaga-se como mercadorias sem se dar conta desta realidade. Tal processo apresenta-se em constante movimento: sendo que a característica mais apresentada pela cultura consumista – “ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta” – é a prória  transformação em mercadoria, ou sua “dissolução no mar de mercadorias”. (BAUMAN, 2008, p. 20). Os consumidores, então, seguem em exposição, como mercadorias, e na verdade, aspiram ser famosos, comentados, desejados por muitos como nos sonhos e contos de fadas. “Se tornar uma mercadoria notável, notada e cobiçada, uma mercadoria comentada que se destaca da massa de mercadorias, impossível de ser ignorada, ridicularizada ou rejeitada”. (BAUMAN, 2008, p. 22). Neste cenário, a identidade profissional é englobada pela busca desenfreada por se tornar uma mercadoria perfeita, servindo mesmo a este propósito:

O mercado de trabalho é um dos muitos mercados de produtos em que se inscrevem as vidas dos indivíduos; o preço de mercado da mão-de-obra é apenas um dos muitos que precisam ser acompanhados, observados e calculados nas atividades da vida individual. Mas em todos os mercados valem as mesmas regras. Primeira: o destino final de toda mercadoria colocada à venda é ser consumida por compradores. Segunda: os compradores desejarão obter mercadorias para consumo se, e apenas se, consumi-las for algo que prometa satisfazer seus desejos. Terceira: o preço que o potencial consumidor em busca de satisfação está preparado para pagar pelas mercadorias em oferta dependerá da credibilidade dessa promessa e da intensidade desses desejos. (BAUMAN, 2008, p. 18).

Os consumidores então são incentivados a buscar um estilo de vida consumista, pois neste tipo de sociedade todos precisam, devem e têm que ser consumidores vocacionados. Dessa forma, o consumidor verá e tratará o consumo como um ato de vocação, realizando um investimento pessoal, alcançando assim, o seu objetivo de consumir, pois o que se torna importante na cultura consumista é manter o sucesso, sendo sempre o destaque. Assim, o consumidor é levado a fazer uma aliança com as “marcas” da sociedade líquido-moderna, entretanto é notável que tais marcas são sufocadas pelo novo, mantém uma volatilidade repentina. Instigados pela concretização dos seus ardentes desejos dentro de uma subjetividade fetichista, os sujeitos reinventam a sua própria subjetividade a fim de se destacar junto à sociedade do consumo. (BAUMAN, 2008).
O perigo de se tornar um mero produto vendável na vitrine social, está em negociar a sua identidade e subjetividade, constituições próprias que deveriam ser inegociáveis. Entretanto, Bauman (2008, p. 24) aponta que na sociedade dos consumidores a subjetividade compra e vende os símbolos empregados na construção da identidade. Assim, o dono da subjetividade concede a opção de compras aos seus potenciais compradores, e sua descrição é transformada em uma simples lista de compras; supostamente a verdade material do self interior se torna, de fato, “a idealização de traços materiais ‘objetificados’ da escolha do consumidor”. Este mesmo autor aponta o ideal de felicidade do consumidor contemporâneo da seguinte forma:

Marcas, logos e grifes são os termos da linguagem do reconhecimento. O que se espera que seja e, como regra, deve ser "reconhecido" com a ajuda de grifes e logos é o que foi discutido nos últimos anos sob o nome de identidade. A operação acima descrita está por trás da preocupação com a "identidade" a que foi concedida tal central idade em nossa sociedade de consumidores. Mostrar "caráter" e ter uma "identidade" reconhecida, assim como descobrir e obter os meios de assegurar a realização desses propósitos inter-relacionados, tornam-se preocupações centrais na busca de uma vida feliz. (BAUMAN, 2009, p. 20).

A negociação do consumidor, então, estaria diretamente ligada à compulsão por produtos, que segundo a hipnose social o conduziria a uma dimensão maior de felicidade. Tais promessas certamente mentirosas são apontadas por Bauman (2008, p.20, 24) ao trazer o exemplo dos quadros pintados por Don Slater que retratam consumidores patetas, idiotas culturais, considerados como ‘heróis da modernidade’. Isto porque são dominados, atraídos, seduzidos por promessas fraudulentas, e não conseguem despojar-se delas, pois a sua capacidade pensante encontra-se encapsulada, de maneira que o indivíduo torna-se irracional, com declínio autonômico, não sabendo mais definir-se ou se auto afirmar, submetendo-se aos desejos irresistíveis do consumismo como mero objeto de consumo escolhido para gastar sem necessariamente necessitar de determinado objeto. Assim, em meio este emaranhado o indivíduo mais do que consumidor vira mercadoria, o que é preocupante, pois seu campo subjetivo torna-se inseguro, uma vez que ele próprio exige de si mesmo um esforço maior, uma imagem aparente de que é uma mercadoria atraente e vendável. Desta forma, “a ‘subjetividade’ dos consumidores é feita de opções de compra – opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição adquire a forma de uma lista de compras”.
Mais do que uma simples realização de compra pela internet está a diminuição dos relacionamentos pessoais presenciais. Este sociólogo pontua que na atualidade tem sido muito costumeiras as trocas de produtos pela internet, onde o consumidor não mais admira, não toca o produto que deseja, simplesmente porque este ambiente não lhe permite estas sensações, e assim o relacionamento social esfria-se notadamete.

Claramente, as pessoas que recorrem às agências da internet em busca de ajuda foram mimadas pelo mercado de consumo, amigável ao usuário, que promete tornar toda escolha segura e qualquer transação única e sem compromisso, um ato ‘sem custos ocultos’, ‘nada mais a pagar, nunca, ‘sem amarras’, ‘nenhum agente para ligar’. O efeito colateral (é possível se dizer, usando uma expressão que está na moda, ‘a baixa colateral’) dessa existência mimada – minimizando os riscos, reduzindo bastante ou abolindo a responsabilidade e, portanto produzindo uma subjetividade dos protagonistas neutralizada a priori – revelou-se, contudo, um volume considerável de ‘desabilitação’ social.[1] (BAUMAN, 2008, p. 23).

Neste sentido, Bauman (2008, p.28) afirma que as agências de compras pela internet estimulam o consumidor a sentir-se constrangido com relacionamentos pessoais. O preparo já instaurado no consumidor em compras presenciais é desarticulado pelos agenciadores, permitindo com que este deixe de examinar, visualizar, tocar a mercadoria que deseja adquirir, e ao deparar-se face a face perdem a naturalidade de negociar, simplesmente porque são considerados como objetos cartesianos “totalmente dóceis, matérias obedientes a serem manejadas, moldadas e colocadas em bom uso pelo onipotente sujeito”. Desta forma, torna-se notável a individualidade frente ao consumo, pois o indivíduo não tem um contato aproximado de um vendedor, além de buscar por menos estresse, como por exemplo, no trânsito; seu olhar se torna mais intrínseco, deixando de olhar nos olhos de um vendedor. “Agora, na era dos desktops, laptops, dispositivos eletrônicos e celulares que cabem na palma da mão, a maioria de nós tem uma quantidade mais do que suficiente de areia para enterrar a cabeça”. Enterrar a cabeça na areia é escolha da vez, pois através de um simples olhar, ou click se é capaz de negociar, excluir, incluir, compartilhar, descartar, o que presencialmente nem sempre se é capaz de fazer.
Vale pensar que o indivíduo motivado pela compulsão, sempre em busca de satisfações imediatas, preocupa-se em rapidamente descartar seus objetos, sendo tendencioso a descartar também seus relacionamentos com a mesma simplicidade com que o faz com qualquer objeto.

Entre as maneiras com que o consumidor enfrenta a insatisfação, a principal é descartar os objetos que a causam. A sociedade de consumidores desvaloriza a durabilidade, igualando “velho” a “defasado”, impróprio para continuar sendo utilizado e destinado à lata de lixo. É pela alta taxa de desperdício, e pela decrescente distância temporal entre o brotar e o murchar do desejo, que o fetichismo da subjetividade se mantém vivo e digno de crédito, apesar da interminável série de desapontamentos que ele causa. A sociedade de consumidores é impensável sem uma florescente indústria de remoção do lixo. Não se espera dos consumidores que jurem lealdade aos objetos que obtêm com a intenção de consumir. (BAUMAN, 2008, p. 31).

Mais do que uma simples escolha por produtos a serem consumidos, a sociedade está estabelecendo relacionamentos como meros objetos de consumo, substituindo e rejeitando seus parceiros como um simples produto descartável, e este jogo é preocupante, pois cada vez mais os relacionamentos tornam-se líquidos e a sociedade do consumo mais adoecida. (BAUMAN, 2008).
Os caminhos da compulsão podem conduzir o indivíduo a uma trilha sem volta, dependendo da opção que o indivíduo escolher: ser conduzido pela espetacular sociedade do consumo, tornando-se uma “mercadoria vendável” e rapidamente cair em desuso, ou o decidir-se por viver sua real identidade e subjetividade, mesmo que não receba os aplausos ou que se torne para a cultura do consumo um “produto utrapassado”.



[1] Em inglês, deskilling – processo pelo qual a mão-de-obra especializada é eliminada pela introdução de tecnologias operadas por trabalhadores semiqualificados ou sem qualificação. (BAUMAN, 2008, p. 23).




REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

_______. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

_______. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

BLINKA, Lucas; SMAHEL, David. Dependência virtual de role playing-games. In: Young et al. Dependência de internet: Manual e guia de avaliação e tratamento. Porto Alegre: Artemed, 2011. v. 1, cap. 5, p. 98-118.

BUCIANO DO ROSÁRIO, Ângela; DE OLIVEIRA MOREIRA, Jacqueline. Culpa e narcisismo na tragédia moderna. Analytica: Revista de Psicanálise. São João Del Rei, v. 1, n. 1, p. 73-89, 2012. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/analytica
/v1n1/v1n1a05.pdf>. Acesso em: 20 setembro 2015.

CAMPOS, Cristiana Caldas Guimarães de; SOUZA, Solange Jobim. Mídia, cultura do consumo e constituição da subjetividade na infância. Psicologia: ciência e profissão. Brasília, v. 23, n. 1, p. 12-21, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pcp/v23n1/v23n1a03.pdf>. Acesso em: 20 fevereiro 2015.

GRIFFITHS, Mark. Dependência virtual de jogos de azar na internet. In: Young et al. Dependência de internet: Manual e guia de avaliação e tratamento. Porto Alegre: Artemed, 2011. v. 1, cap. 6, p. 119-165.

JASPERS, Karl. Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia. Rio de Janeiro: Atheneu, 1985.

MORAES, Gláucia T. Bardi de; PILATTI, Luiz Alberto; SCANDELARI, Luciano. Os desafios da produção e distribuição no século 21; Integração técnica e organizacional das cadeias produtivas. In: ENCONTRO NAC DE ENG DE PRODUÇÃO, n. XXV, 2005, Porto Alegre. Comportamento patológico provocado pelo uso indevido de internet: uma leitura no ambiente produtivo e social. Porto Alegre: ABEPRO, 29 out. a 01 de nov., 2005, p. 2456-2462. Disponível em: <http://www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP2005_Enegep0404_1351.pdf>.
Acesso em: 15 setembro 2015.

TAVARES, Hermano. Jogo patológico e suas relações com o espectro impulsivo-compulsivo. 2000. 184 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo. Disponível em: <http://www.jogoremoto.pt/docs/extra/IsLEig.pdf>. Acesso em: 20 novembro 2014.


Texto retirado da monografia "O Espetáculo do Simulacro na Cultura Contemporânea"

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