AS FORMAS CULTURAIS DE ADOECIMENTO


Autora: Leopoldina Veiga Guimarães Ferreira


Para se compreender melhor as formas culturais de adoecimento, faz-se necessário mencionar antes o modelo estrutural do psiquismo formulado por Freud na segunda teoria do aparelho psíquico. A partir desta teoria, o pai da psicanálise apresentou três instâncias atuantes no psiquismo humano: O Id, o Ego e o Superego.


O Id ou isso – constitui o polo pulsional da personalidade. Os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e adquiridos. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 219); o Ego ou eu – do ponto de vista tópico o ego está numa relação de dependência tanto para com as reivindicações do id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 124); Superego ou supereu – o seu papel é assimilável ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 497).

O id é um sistema original da personalidade, de onde derivam o ego e o superego. Ele opera sobre o princípio do prazer[1] e é considerado como tomando parte do processo primário[2]; já o Ego, que deriva do id, é sua porção organizada e obedece ao princípio da realidade e ao processo secundário[3], buscando integrar as demandas do id com os conflitos ocasionados pelos impedimentos postos pela realidade e as interdições do superego, adiando a realização de prazer e instituindo uma tolerância à frustração ocasionada pela não realização imediata das pulsões; já o Superego surge a partir da vivência simbólica do complexo de Édipo e a internalização das instâncias morais e judicativas vigentes na sociedade, antes projetadas nos pais e nas figuras de autoridade. Por meio da internalização dessa instância, o superego decide moralmente os destinos adequados das pulsões, buscando sua congruência com as leis morais, sendo uma espécie de juiz introjetado no psiquismo. Em meio a este funcionamento, o superego instaura sentimentos de culpa e de vergonha caso o ego não aja em conformidade com as leis por ele instituídas. Dentre as suas principais atribuições estão: a inibição das pulsões do Id, especialmente as de natureza agressiva e sexual, e a instauração de objetivos moralistas no ego, substituindo os exclusivamente realistas para incorporar os ideais de perfectibilidade postos moralmente pela sociedade.
Compreender este funcionamento importa porque ele não vige somente no psiquismo do indivíduo, mas pode nortear um funcionamento social no qual os indivíduos estão imersos. Nesta acepção, podemos situar a cultura ocidental, especialmente a brasileira, com tomando parte em um funcionamento social Idípico[4], sob a regência do princípio do prazer que detém a seu serviço a energia pulsional, buscando a livre e imediata satisfação; nestes moldes, o indívíduo é impelido a realizar os seus desejos sem ter que defrontar-se com grandes impedimentos; vale dizer que este funcionamento se contrapõe frontalmente com o instituído pelo princípio de realidade, tido como o princípio regulador que exige que o indivíduo adie a sua satisfação para o momento considerado mais oportuno, desviando a plena satisfação pulsional para objetos socialmente e moralmente mais aceitáveis. Ao longo da vida e em todas as circunstâncias há um embate entre o funcionamento instituído pelo princípio de prazer e pelo princípio de realidade (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001), mas o que se percebe no funcionamento da contemporaneidade brasileira é a diminuição gradativa da tensão necessária para a exigência da regulação do prazer e instituição de uma tolerância à frustração ocasionada pelo adiamento das pulsões egoístas, agressivas e imediatas do sujeito; isto faz com que as reações dos indivíduos sejam menos sujeitas ao sancionamento superegóico e mais propensas à realização imediata das pulsões, pelo fato da própria sociedade brasileira não ser muito castradora. Os motivos para tanto poderiam ser listados na investigação da própria história do país e das imigrações que o compuseram, mas esta fugiria dos propósitos desta investigação.
O que nos cabe aqui é inferir, a partir de um funcionamento social mais ou menos repressor, é a hipótese de que os padrões de normatização sociais, aliados aos ideais e regras vigentes nos superegos dos pais, e que são introjetados no psiquismo compondo o superego, tornaria os indivíduos mais propensos a tipos distintos de psicopatologias. Se assim considerarmos e diante do exposto pela consideração da visão de mundo da sociedade brasileira, caberia-nos delimitar sua diferença com relação a uma configuração psiquico-social distinta. Para tanto, uma forma expressiva de adoecimento que atualmente chama a atenção é o fenômeno psicopatológico que tem acometido muitos jovens japoneses:o hikikomori.
Diferentemente da configuração psíquica dos ocidentais, os japoneses são influenciados por fatores transgeracionais que atuam como valores morais concernentes a questões relacionadas à ética, os ideais, os próprios preconceitos e crenças que são conduzidos pelos ditames culturais e que incidem na formação do superego. A primeira diferença encontrada no oriental é a ausência da noção de indivíduo; se hoje se fala em individualidade no Japão, trata-se de uma mudança muito recente e abrupta, oriunda das transformações advindas do pós-guerra devido a imposição das potências ocidentais para que o Japão se transformasse numa sociedade democrática capitalista; (SUWA; SUZUKI, 2013; KATSUMATA, 2011). A sociedade japonesa sempre se comportou de modo coletivo, e este é o motivo pelo qual o jovem contemporâneo se sente massacrado pelo peso dos olhares (julgadores) da sociedade. Como protótipo da sociedade, a família japonesa se centra em um funcionamento baseado na dádiva, ou seja, nas ações que são oriundas de uma manifestação de apreço pessoal. Para dar conta das dádivas recebidas, os filhos se sentem em dívida e moldam suas ações de modo a fazer com que correspondam às expectativas dos pais. Uma demonstração típica de apreço, na família japonesa, se nos mostra na ideia de que a família é para sempre – e de fato as cerimônias de honra aos antepassados mostram este anseio de retribuição dadivosa que persiste além morte -, e isso faz com que os pais criem os filhos para serem felizes, sentindo que o papel paterno pressupõe o apoio constante, mesmo que silencioso e ausente de alardes. Dada a dificuldade dos pais prepararem os filhos para uma vida de independência, quando estes falham na conquista de independência os pais se sentem na obrigação de cuidar dos filhos. Os falhas, antes de serem propositais e lidadas com tranquilidade pelos jovens, são penosamente sentidas: frente a um desafio (acadêmico ou relacionada ao trabalho) o qual  o jovem sente qua não é capaz, ou frente ao qual fracassou e não corresponde às exigências sociais, o jovem se pune, sentindo-se um fracassado.(REES, 2002). Ora, como a parcela de recalcamento social das pulsões é, para os japoneses, muito ativa e castradora, pode-se dizer que a pessoa inserida neste contexto de criação é conduzida pelo superego. Neste aspecto, mesmo na ausência de combranças externas e no silêncio da aceitação dadivosa dos pais, os filhos podem se sentir cobrados e punidos: a sociedade judicativa e punitiva está introjetada em seu psiquismo, e este superego terrífico é sempre vigilante e mordaz. Todas vivências repassadas de uma geração para outra, mesmo que inconscientemente, são geradoras de culpa e pressão exagerada do psiquismo, o que por certo conduz o indivíduo a patologias severas, como os quadros melancólicos e obsessivos graves, entre outras. (ZIMERMAN, 1999).
Na diferença da cultura oriental japonesa, pode-se identificar que a cultura ocidental brasileira é direcionada pelo o ego ideal, que, segundo Zimerman (1999), é herdeiro do narcisismo primário[5] e funciona no plano imaginário, no qual o indivíduo fantasia e ilude-se como um ser onipotente, ponderando o mesmo valor e significado ao ter e ao ser. Deste modo, a pessoa em cujo psiquismo predomina o ego ideal sempre espera muito de si mesmo, cultivando ideais inatingíveis, e porque mantém identificações narcísicas primárias, constitui uma identidade imitativa e falseada, distanciada do ego real. Assim, o indivíduo motivado pelo prisma da fantasia se utiliza da renegação[6], cultivando o sentimento de humilhação no enfentamento das frustrações. “O ego ideal é conjugado no presente indicativo: ‘Eu sou assim...’, o que indica que transitoriamente no desenvolvimento emocional primitivo ele pode ser estruturante”. (ZIMERMAN, 1999, p. 84).
Já na cultura oriental, o que mais se destaca é o Ideal do Ego, uma configuração herdeira do ego ideal, no qual o sujeito é guiado por um ideal de subjetividade que se utiliza da autoconfiança oriunda daquela etapa em que o olhar da mãe ao bebê fornecia-lhe a sensação de onipotência e de ser amado (e que instituía um ego ideal no bebê). O indivíduo que vivencia o modelo estrutural psíquico do Ideal do Ego vive em prol das expectativas projetadas nele pelos pais. O Ideal do Ego é considerado saudável no movimento de identificação parental desde que não se estenda permanentemente e interrompa a construção do self real, conduzindo o indivíduo ao falso self, no intuito de persistentemente almejar satisfazer os desejos dos outros. Enquanto que no ego ideal o sentimento que predomina é a humilhação por não ser aquilo que se julga, no ideal do ego a vergonha é o sentimento reinante no sujeito que se defronta com algum tipo de fracasso.
E é justamente esta fixação ao ideal do ego que a sociedade oriental japonesa elucida e que instaura um fenômeno psicopatológico que, após ser identificado no Japão, foi reconhecido também em outros países que partilham do funcionamento superegóico da sociedade. (KATSUMATA, 2012). Desta feita, surge uma nova categoria psicopatológica, os hikikomori[7], que compartilham sintomatologias diversas: baixa autoestima, por se considerarem insuficientes, mesmo que ninguém os questione; apresentam ansiedade frente a desempenhos que visam a competição social (acadêmica/laboral), ansiedade social, depressão, alguns apresentam sintomas semelhantes ao pânico, e na na maioria do tempo se sentem agredidos; sendo assim, isolam-se em seu quarto, não se comunicam com ninguém, nem mesmo a família, e não procuram ajuda. Os pais, com sua atitude respeitosa do silêncio do filho, geralmente não confrontam e aguardam o momento passar, mas ele não passa: ao contrário, se intensifica. Com o passar do tempo, escondem o sofrimento do filho para que nem ele nem a família seja julgada pelos vizinhos, amigos e parentes. É cada vez maior o número de adolescentes, jovens e até mesmo adultos na sociedade japonesa que se tornam hikikomori, o que geralmente se dá após vivenciarem uma situação de fracasso perante a qual se sentem derrotados e indignos, e se isolam porque se veem impossibilitados de manter um relacionamento com o outro. (REES, 2002). É importante notar que na atualidade a mediação dos relacionamentos sociais dos jovens japoneses se utiliza de jogos e máquinas eletrônicas, ocasiões estas atravessadas por uma noção de individualidade historicamente recente, construída por ideologias mercadológicas; com isso, os relacionamentos sociais se tornam distanciados, falsificados e até mesmo irreais, fazendo com que os indivíduos à parte destas relações fabricadas se vejam sós com suas pulsões, e dada a rigidez das condutas superegóicas da sociedade, voltem a agressividade para si mesmos, ao invés de para o outro. (KATSUMATA, 2012; SUWA; SUZUKI, 2013).
As principais características deste problema sócio psicológico, o hikikomori, são: fobia social – quando o indivíduo busca o isolamento social, deixando de sair de casa, trancando-se em seu quarto, deixando de realizar atividades rotineiras, de dialogar com os pais; apresentam apatia estudantil que os leva ao abandono dos estudos, postergando a incursão ao trabalho; narcisismo/desordem de personalidade de evasão; parasite singles (parasita solteiro) – termo que designa o jovem depende financeiramente dos pais, direcionando a renda própria para desfrutar de uma vida de luxo. O hikikomori é uma doença psicológica grave, que por vezes envolve a automutilação e tentativa de suicídio. (KATSUMATA, 2012).
Como o intuito de apresentar esta psicopatologia em voga no Japão é justamente apontar para a idiossincrasia dos fenômenos psicopatológicos que surgem de acordo com as visões de mundo típicas de determinadas culturas, a fim de fomentar o entendimento de seu modus operandi, é preciso compreender o funcionamento social e, especialmente, a psicodinâmica familiar típica da sociedade japonesa. Diferentemente dos pais ocidentais que em sua maioria não têm dificuldade de demonstrar afeto por seus filhos preparando-os e ensinando-os a serem independentes, e muitas vezes até mesmo exigindo a independência dos mesmos, os pais japoneses acreditam que o afeto é demonstrado através da preocupação, por toda a vida, para com os filhos. Sendo assim, proporcionar uma vida confortável, sacrificar-se, fazer tudo o que puderem e servir aos filhos com todas as condições materiais é considerado uma mostra da sua afeição. Esta ideologia dadivosa, aliada da dificuldade de externalizar os descontentamentos, e o sentimento constante dos filhos de que estão em dívida com os pais, devendo portanto compensá-los e retribuir seu cuidado e dedicação, foi que deu origem ao fenômeno hikikomori, estendendo-se na sociedade japonesa a ponto de criar “um viveiro para o parasita solteiro ou hikikomori”. (KATSUMATA, 2012, p. 4).
Os pais ocidentais apresentam características muito diferenciadas quando comparados aos pais orientais.  Katsumata (2012) sinaliza que as diferenças em termo de criação são visíveis, como os pais double bind[8]  norte-americanos, capazes de mostrar afeição através da linguagem que utilizam com seus filhos, distanciando-se friamente deles quando necessário; já os pais japoneses double bind invertem esses valores, especialmente nas famílias de hikikomori, mimando demasiadamente os seus filhos, concedendo um espaço excessivo para o sofrimento calado dos mesmos por não confrontá-los ou conversar sobre o assunto.
Enquanto os orientais japoneses são cercados pela solidão, buscando pautar sua vida por meio de imagens ideais que correspondam às expectativas do outro, preservando, assim, o falseamento da imagem real ao “esvaziar o copo” constantemente, na cultura ocidental o indivíduo se sente compelido a “encher mais o copo”, encher até a borda, até transbordar - a sociedade vive em uma competitividade constante em meio à qual o indivíduo é superestimulado a não ter colaboradores, mas a viver na solidão performática, mesmo que intelectual. Como a sociedade ocidental não tem tanta consideração pelos mandamentos do superego, tal como a sociedade japonesa o têm, não produzirá hikikomoris, mas patologias associadas à busca incessante pela satisfação pessoal, tendo como lema: viva o Id! - produto resultante de uma única civilização globalizada e capitalista; mas apesar deste compartilhamento, faz-se necessário dizer que cada cultura experienciará formas de adoecimentos específicos.
A cultura brasileira dirige a agressividade, a euforia e a intensidade dos trejeitos extrovertidos e sexualizados para o âmbito exterior. Por isso, pode-se falar numa incidência maior de organizações histriônicas, narcisistas e sociopatas em nossa sociedade, enquanto que nas sociedades mais socialmente castradoras a tendência sintomática é a do isolamento (depressão, fobia social, ansiedade generalizada, entre outras).
A partir destas novas configurações surgem as mais diversificadas patologias, como no ocidente, tangido pela busca da satisfação imediata, na qual o indivíduo não gasta tempo na reflexão e nem exterioriza de fato quem é, partindo para a atuação nas mais diversas formas: o narcisismo, a drogadição, a sociopatia, entre outras, e cabe ressaltar que dentre estas atuações da angústia está o hoje tão difundidamente conclamado nas escolas: o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Conforme o DSM V são 9 critérios diagnósticos para TDAH. Destes 9 o indivíduo que apresentar pelo menos seis ou mais sintomas é acometido deste transtorno. Quanto aos sintomas de desatenção, são: (a) frequentemente não presta atenção em detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras (p. ex. negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é impreciso); (b) Frequentemente tem dificuldade de manter a atenção em tarefas e atividades lúdicas (p. ex. dificuldade de manter o foco durante aulas, conversas ou leituras prolongadas); (c) com frequência parece não escutar quando lhe dirige a palavra diretamente (p. ex. parece estar com a cabeça longe, mesmo na ausência de qualquer distração obvia; (d) com frequência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade de compreender instruções) (p. ex. começa tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente perde o rumo); (e) com frequência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades (p. ex. dificuldade em gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade em manter materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e desleixado, mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazo); (f) com frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (p. ex. como trabalhos escolares ou deveres de casa para adolescentes mais velhos e adultos, preparo de relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos); (g) com frequência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (p. ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais); (h) com frequência é facilmente distraído por estímulos externos (para adolescentes mais velhos e adultos, pode concluir pensamentos não relacionados); (i) com frequência é esquecido em relação a atividades cotidianas (p. ex. realizar tarefas, obrigações; para adolescentes mais velhos e adultos, retornar ligações, pagar contas, manter horários agendados). No que se refere aos sintomas de hiperatividade e impulsividade: (a) frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira; (b) frequentemente levanta da cadeira em situações que se espera que permaneça sentado (p. ex. sai do seu lugar em sala de aula, no escritório ou outro local de trabalho ou em outras situações que exijam que permaneça em um mesmo lugar); (c) frequentemente corre ou sobe nas coisas em situações em que isso é inapropriado (nota: em adolescentes ou adultos pode se limitar sensações de inquietude); (d) com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer; (e) está frequentemente "a mil" ou muitas vezes age como se estivesse "a todo vapor" (p. ex. não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito tempo, como em restaurantes, reuniões; outros podem ver o indivíduo como inquieto ou difícil de acompanhar); (f) frequentemente fala demais; (g) frequentemente deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída (p. ex. termina as frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar); (h) frequentemente tem dificuldade para esperar a sua vez (p. ex., aguardar em uma fila); (i) frequentemente interrompe ou se intromete (p. ex., mete-se nas conversas, jogos ou atividades; pode começar a usar as coisas de outras pessoas sem pedir ou receber permissão; para adolescentes e adultos; pode intrometer-se em ou assumir o controle sobre o que os outros estão fazendo).
Estes sintomas, mesmo que isolados e incapazes de sinalizar o montante dos critérios necessários para se estabelecer o diagnóstico, funcionam como um radar judicativo que, de forma apressada (hiperativa/impulsiva?), imputam um destino ao comportamento infantil, destino este realizado por meio de diagnósticos imprecisos, dados muitas vezes por pessoas que não detém a autoridade para tanto (médicos clínico gerais, professores, pais). Será que de fato o índice de TDAH é tão elevado assim? Será que a sociedade está sendo apta a diagnosticar com maior precisão? Ou estes diagnósticos retratam outra realidade, e os sintomas podem ser explicados de forma diversa? Cury (2014) parte desta última premissa e aponta a existência de uma nova síndrome que está sendo severamente confundida como o TDAH, a por ele nomeada de Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Segundo ele, a SPA atinge mais de 80% dos indivíduos de todas as idades, inclusive as crianças que sofrem pressões por parte dos pais e são preenchidas de afazeres devido à competitividade exigida pela sociedade capitalista. Deste modo, tanto crianças quanto adultos vivem em uma ansiedade constante, exibindo sintomas psíquicos e psicossomáticos decorrentes dessa síndrome que comprometem o desempenho global do intelecto.

Sem perceber, a sociedade moderna – consumista, rápida e estressante – alterou algo que deveria ser inviolável, o ritmo de construção de pensamentos, gerando consequências seríssimas para a saúde emocional, o prazer de viver, o desenvolvimento da inteligência, a criatividade e a sustentabilidade das relações sociais. Adoecemos coletivamente. Este é um grito de alerta. (CURY, 2014, p. 1).

Este mesmo autor ainda pontua que em muitos diagnósticos os especialistas como neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos se equivocam ao observar queixas como a constante desconcentração, a irritabilidade, a inquietude, o baixo limiar para a frustração e a resistência às normas, vigentes na SPA, com o TDAH, devido à semelhança dos sintomas; entretanto, elas diferem quanto às causas e a terapêutica adotada - a etiologia da hiperatividade pode eclodir da genética, pois geralmente um dos pais é hiperativo, ao contrário das causas da SPA, que podem remeter ao excesso de estimulação que a criança é exposta por meio de seus brinquedos, atividades e informações; quanto ao tratamento da hiperatividade, também encontramos diferenças, uma vez que na SPA não há alteração metabólica e sim uma falha funcional e social relacionada à construção da personalidade e da que maneira a mente funciona, podendo ser corrigida através de mudanças no ambiente e na forma com que os pais se relacionam com a criança. Nesta mudança de rotina é fundamental, por exemplo, a “desaceleração” da criança por meio da realização de atividades mais lentas e lúdicas, como ouvir músicas tranquilas (música instrumental), tocar instrumentos, pintar, praticar esportes (não visando o desempenho e a competição, mas o lazer), ou fazer teatro. Caso estas técnicas de manejo da desaceleração não sejam implementadas, a criança não aprenderá a “gerenciar seus pensamentos e proteger sua emoção”, repetindo, assim, os mesmos erros, irritadiça, com baixo limiar a frustrações e com dificuldade em aceitar contrariedades, permanecendo sempre insatisfeita e evidenciando comprometimento do rendimento intelectual. (CURY, 2014, p. 28).
 Ao se considerar a validade da categoria diagnóstica da SPA invariavelmente o diagnóstico estrito do TDAH é colocado em discussão, uma vez que os sintomas podem ser produto de uma vida superestimulada proporcionada pela sociedade altamente competitiva à criança. Se os pais ensejam prepará-la, desde muito cedo, para a competição de mercado, instituída por meio de uma rotina exacerbada e atividades lúdicas altamente estimulantes, certamente as crianças  receberão a carga de ansiedade, a qual só conseguem manejar através da eliminação pela via motora; e se a ansiedade prejudica a concentração, a aprendizagem também é dificultada – já que, comparada a um videogame ou a uma brincadeira barulhenta, a sala de aula fica muito atrás dos interesses culturais proporcionados cotianamente. Mesmo a ansiedade não é bem compreendida; ela é  uma característica importante para a potencialização intelectual do sujeito, mas somente é vista como um sintoma psicopatológico. De forma inicial, vale mencionar como os principais dicionários da língua portuguesa explicam o termo: aflição, angústia, perturbação do espírito provocada por incertezas, podendo estar relacionada com qualquer situação perigosa. (FERREIRA, 2004; MICHAELIS, 1999).  Tal fenômeno por vezes pode beneficiar o indivíduo e em outros momentos ser altamente prejudicial, uma vez que, dependendo da situação, pode tornar-se patológico, dificultando o bom funcionamento da mente e do corpo.

A ansiedade é um estado emocional com componentes psicológicos e fisiológicos que faz parte do desenvolvimento do ser humano, podendo tornar-se patológica quando acontece de forma exagerada e sem uma situação real ameaçadora que a desencadeie. No ser humano, as causas mais comuns da ansiedade não são de natureza biológica, mas sim psicológicas, surgindo em função de comunicações simbólicas, verbais ou não, interpretadas à luz de conceitos, crenças e valores formulados por uma comunidade sociocultural. (CAÍRES; SHINOHARA, 2010, p. 63).

            A ansiedade é um mal estar contemporâneo que surge na medida em que a sociedade constantemente impõe ditames que, mesmo sendo inatingíveis, são perseguidos a ponto de se abrir mão do que é particular, próprio e único, a fim de não se correr o risco de ficar fora dos padrões preestabelecidos.  E se esta escolha valerá ou não a pena, só o tempo dará a resposta; e seja ela qual for, será o próprio indivíduo quem sofrerá suas consequências, sejam elas boas ou ruins.



[1] Segundo Laplanche e Pontalis (2001, p. 364) o Princípio do Prazer é um dos princípios que rege o funcionamento mental, cuja atividade psíquica concentra-se em “evitar o desprazer e proporcionar o prazer”. Tal princípio busca a satisfação imediata pela redução à excitação interna.
[2] O processo primário é um modo característico do inconsciente, onde o bebê alucina, por ser a maneira mais curta de satisfação do desejo, embora não seja considerado a melhor forma. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001). É através deste processo que a energia pulsional escoa livremente tendendo a descarga imediata e total e atinge as representações de acordo com os mecanismos de condensação e deslocamento. (ZIMERMAN, 2001). 
[3] O processo secundário é o modo que característica o sistema pré-consciente-consciente. Este processo busca impedir a ação sob processo primário. É justamente por meio deste processo que o pensamento experimenta diferentes destinos para a satisfação. “A energia começa por estar ‘ligada’, antes de escoar de forma controlada; as representações são investidas de maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências mentais que põe a prova os diferentes caminhos possíveis de satisfação”. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 371).
[4] Organizada pelo id, e não pelo ego.
[5] Narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 290).
[6] De acordo com Laplanche e Pontalis (2001, p. 128) é um mecanismo de defesa primitivo, alicerçado pela onipotência mágica, utilizado pelo ego para rejeitar a determinada vivência e a “tomada de conhecimento de tais experiências emocionais ansiogênicas”. A Renegação tem menor gravidade ao ser comparado com a forclusão psicótica, por apresentar-se “mais parcial e estar encapsulada em uma só parte do ego”. Este mecanismo foi descrito por Freud como Verleugnung, cujo significado é renegação, denegação, recusa, desestima, desmentida. É característico em estruturas perversas, pois através deste mecanismo, o indivíduo nega verdades por ele conhecidas, reforçando uma falsa crença.

[7] Hikikomori significa ‘retirada’ – é um termo japonês que descreve jovens ocidentais que se retiram do convívio social, vivendo em isolamento por 6 meses ou mais, além de se recusarem a trabalhar e estudar. O problema tem se desenvolvido nos últimos 30 anos, e os números de casos estimados giram em torno de centenas de milhares, podendo chegar até de 1,2 milhões, sendo sua maior incidência em homens. (KATSUMATA, 2012; SUWA; SUZUKI, 2013).  
[8] Termo que alude ao dilema existente entre informações conflituosas entre os membros.



REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

CAÍRES, Monique Cabral; SHINOHARA, Helene. Transtornos de ansiedade na criança: um olhar nas comunidades. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 62-84, 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/ pdf/rbtc/v6n1/v6n1a05.pdf>. Acesso em: 17 abril 2015.

CURY, Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal do século: a síndrome do pensamento acelerado: como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças ao adulto. São Paulo: Saraiva, 2014.

FERREIRA, Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

KATSUMATA, Miho. Hikikomori: A Qualitative Study on Social Withdrawal of Japanese Adolescents. Scholar. Thailand, v. 3, n. 2, 2011. Disponível em:< http://its-3.au.edu/open_journal/index.php/Scholar/article/view/233>. Acesso em: Acesso em: 18 fevereiro 2015.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. 5. ed., São Paulo: Companhia de melhoramentos, 2009.

REES, Philip. The mistery of the missing million. [Documentário exibido pela BBC], Japão: Vimeo, 2011. 1 vídeo: 45 min., som e cor. Disponível em: <https://vimeo.com/28627261>. Acesso em: 6 outubro 2015.

SUWA, M.; SUZUKI, K. The phenomenon of “hikikomori” (social withdrawal) and the socio-cultural situation in Japan today. Journal of Psychopathology, Nagoya, v. 19, p. 191-198, 2013. Disponível em: <http://www.jpsychopathol.net/issues/2013/vol19-3/01b-Suwa-abstract.html>. Acesso em: 18 fevereiro 2015.

ZIMERMAN, D. E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.


Texto retirado do último capítulo da monografia "Espetáculo do Simulacro na Cultura Contemporânea".

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