Autora: Leopoldina Veiga Guimarães Ferreira
Para se
compreender melhor as formas culturais de adoecimento, faz-se necessário mencionar antes o modelo
estrutural do psiquismo formulado por Freud na segunda
teoria do aparelho psíquico. A partir desta teoria, o pai da psicanálise
apresentou três instâncias atuantes no psiquismo humano: O Id, o Ego e o
Superego.
O Id ou isso – constitui o polo pulsional da
personalidade. Os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são
inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e
adquiridos. (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 219); o Ego ou eu – do ponto de vista
tópico o ego está numa relação de dependência tanto para com as reivindicações
do id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade.
(LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 124); Superego ou supereu – o seu papel é
assimilável ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego. (LAPLANCHE;
PONTALIS, 2001, p. 497).
O
id é um sistema original da personalidade, de onde derivam o ego e o superego.
Ele opera sobre o princípio do prazer[1]
e é considerado como tomando parte do processo primário[2];
já o Ego, que deriva do id, é sua porção organizada e obedece ao princípio da
realidade e ao processo secundário[3],
buscando integrar as demandas do id com os conflitos ocasionados pelos
impedimentos postos pela realidade e as interdições do superego, adiando a
realização de prazer e instituindo uma tolerância à frustração ocasionada pela
não realização imediata das pulsões; já o Superego surge a partir da vivência
simbólica do complexo de Édipo e a internalização das instâncias morais e
judicativas vigentes na sociedade, antes projetadas nos pais e nas figuras de
autoridade. Por meio da internalização dessa instância, o superego decide
moralmente os destinos adequados das pulsões, buscando sua congruência com as
leis morais, sendo uma espécie de juiz introjetado no psiquismo. Em meio a este
funcionamento, o superego instaura sentimentos de culpa e de vergonha caso o
ego não aja em conformidade com as leis por ele instituídas. Dentre as suas
principais atribuições estão: a inibição das pulsões do Id, especialmente as de
natureza agressiva e sexual, e a instauração de objetivos moralistas no ego,
substituindo os exclusivamente realistas para incorporar os ideais de perfectibilidade
postos moralmente pela sociedade.
Compreender
este funcionamento importa porque ele não vige somente no psiquismo do
indivíduo, mas pode nortear um funcionamento social no qual os indivíduos estão
imersos. Nesta acepção, podemos situar a cultura ocidental, especialmente a
brasileira, com tomando parte em um funcionamento social Idípico[4],
sob a regência do princípio do prazer que detém a seu serviço a energia
pulsional, buscando a livre e imediata satisfação; nestes moldes, o indívíduo é
impelido a realizar os seus desejos sem ter que defrontar-se com grandes
impedimentos; vale dizer que este funcionamento se contrapõe frontalmente com o
instituído pelo princípio de
realidade, tido como o princípio regulador que exige que o indivíduo adie a sua
satisfação para o momento considerado mais oportuno, desviando a plena
satisfação pulsional para objetos socialmente e moralmente mais aceitáveis. Ao
longo da vida e em todas as circunstâncias há um embate entre o funcionamento
instituído pelo princípio de prazer e pelo princípio de realidade (LAPLANCHE;
PONTALIS, 2001), mas o que se percebe no funcionamento da contemporaneidade brasileira
é a diminuição gradativa da tensão necessária para a exigência da regulação do
prazer e instituição de uma tolerância à frustração ocasionada pelo adiamento das
pulsões egoístas, agressivas e imediatas do sujeito; isto faz com que as
reações dos indivíduos sejam menos sujeitas ao sancionamento superegóico e mais
propensas à realização imediata das pulsões, pelo fato da própria sociedade
brasileira não ser muito castradora. Os motivos para tanto poderiam ser listados
na investigação da própria história do país e das imigrações que o compuseram,
mas esta fugiria dos propósitos desta investigação.
O que nos cabe
aqui é inferir, a partir de um funcionamento social mais ou menos repressor, é
a hipótese de que os padrões de normatização sociais, aliados aos ideais e
regras vigentes nos superegos dos pais, e que são introjetados no psiquismo
compondo o superego, tornaria os indivíduos mais propensos a tipos distintos de
psicopatologias. Se assim considerarmos e diante do exposto pela consideração
da visão de mundo da sociedade brasileira, caberia-nos delimitar sua diferença
com relação a uma configuração psiquico-social distinta. Para tanto, uma forma
expressiva de adoecimento que atualmente chama a atenção é o fenômeno psicopatológico
que tem acometido muitos jovens japoneses:o hikikomori.
Diferentemente
da configuração psíquica dos ocidentais, os japoneses são influenciados por
fatores transgeracionais que
atuam como valores morais concernentes a questões relacionadas à ética, os
ideais, os próprios preconceitos e crenças que são conduzidos pelos ditames
culturais e que incidem na formação do superego.
A primeira diferença encontrada no oriental é a ausência da noção de indivíduo;
se hoje se fala em individualidade no Japão, trata-se de uma mudança muito
recente e abrupta, oriunda das transformações advindas do pós-guerra devido a
imposição das potências ocidentais para que o Japão se transformasse numa
sociedade democrática capitalista; (SUWA;
SUZUKI, 2013; KATSUMATA, 2011). A
sociedade japonesa sempre se comportou de modo coletivo, e este é o motivo pelo
qual o jovem contemporâneo se sente massacrado pelo peso dos olhares
(julgadores) da sociedade. Como protótipo da sociedade, a família japonesa se
centra em um funcionamento baseado na dádiva, ou seja, nas ações que são
oriundas de uma manifestação de apreço pessoal. Para dar conta das dádivas
recebidas, os filhos se sentem em dívida e moldam suas ações de modo a fazer
com que correspondam às expectativas dos pais. Uma demonstração típica de
apreço, na família japonesa, se nos mostra na ideia de que a família é para
sempre – e de fato as cerimônias de honra aos antepassados mostram este anseio
de retribuição dadivosa que persiste além morte -, e isso faz com que os pais
criem os filhos para serem felizes, sentindo que o papel paterno pressupõe o
apoio constante, mesmo que silencioso e ausente de alardes. Dada a dificuldade
dos pais prepararem os filhos para uma vida de independência, quando estes
falham na conquista de independência os pais se sentem na obrigação de cuidar
dos filhos. Os falhas, antes de serem propositais e lidadas com tranquilidade
pelos jovens, são penosamente sentidas: frente a um desafio (acadêmico ou
relacionada ao trabalho) o qual o jovem
sente qua não é capaz, ou frente ao qual fracassou e não corresponde às
exigências sociais, o jovem se pune, sentindo-se um fracassado.(REES, 2002).
Ora, como a parcela de recalcamento social das pulsões é, para os japoneses,
muito ativa e castradora, pode-se dizer que a pessoa inserida neste contexto de
criação é conduzida pelo superego. Neste aspecto, mesmo na ausência de
combranças externas e no silêncio da aceitação dadivosa dos pais, os filhos
podem se sentir cobrados e punidos: a sociedade judicativa e punitiva está introjetada
em seu psiquismo, e este superego terrífico é sempre vigilante e mordaz. Todas
vivências repassadas de uma geração para outra, mesmo que inconscientemente,
são geradoras de culpa e pressão exagerada do psiquismo, o que por certo conduz
o indivíduo a patologias severas, como os quadros melancólicos e obsessivos
graves, entre outras. (ZIMERMAN, 1999).
Na diferença da
cultura oriental japonesa, pode-se identificar que a cultura ocidental brasileira
é direcionada pelo o ego ideal, que, segundo Zimerman (1999), é herdeiro do
narcisismo primário[5]
e funciona no plano imaginário, no qual o indivíduo fantasia e ilude-se como um
ser onipotente, ponderando o mesmo valor e significado ao ter e ao ser. Deste modo,
a pessoa em cujo psiquismo predomina o ego ideal sempre espera muito de si
mesmo, cultivando ideais inatingíveis, e porque mantém identificações
narcísicas primárias, constitui uma identidade imitativa e falseada,
distanciada do ego real. Assim, o indivíduo motivado pelo prisma da fantasia se
utiliza da renegação[6],
cultivando o sentimento de humilhação no enfentamento das frustrações. “O ego ideal é conjugado no presente
indicativo: ‘Eu sou assim...’, o que indica que transitoriamente no
desenvolvimento emocional primitivo ele pode ser estruturante”. (ZIMERMAN, 1999, p. 84).
Já na cultura oriental, o que mais se destaca é o Ideal do Ego, uma
configuração herdeira do ego ideal, no qual o sujeito é guiado por um ideal de
subjetividade que se utiliza da autoconfiança oriunda daquela etapa em que o
olhar da mãe ao bebê fornecia-lhe a sensação de onipotência e de ser amado (e
que instituía um ego ideal no bebê). O indivíduo que vivencia o modelo
estrutural psíquico do Ideal do Ego vive em prol das expectativas projetadas nele
pelos pais. O Ideal do Ego é considerado saudável no movimento de identificação
parental desde que não se estenda permanentemente e interrompa a construção do self real, conduzindo o indivíduo ao
falso self, no intuito de persistentemente
almejar satisfazer os desejos dos outros. Enquanto que no ego ideal o
sentimento que predomina é a humilhação por não ser aquilo que se julga, no
ideal do ego a vergonha é o
sentimento reinante no sujeito que se defronta com algum tipo de fracasso.
E é justamente esta fixação ao ideal do ego que a sociedade oriental japonesa elucida e
que instaura um fenômeno psicopatológico que, após ser identificado no Japão,
foi reconhecido também em outros países que partilham do funcionamento
superegóico da sociedade. (KATSUMATA,
2012). Desta
feita, surge uma nova categoria psicopatológica, os hikikomori[7],
que compartilham sintomatologias diversas: baixa autoestima, por se considerarem
insuficientes, mesmo que ninguém os questione; apresentam ansiedade frente a
desempenhos que visam a competição social (acadêmica/laboral), ansiedade
social, depressão, alguns apresentam sintomas semelhantes ao pânico, e na na
maioria do tempo se sentem agredidos; sendo assim, isolam-se em seu quarto, não
se comunicam com ninguém, nem mesmo a família, e não procuram ajuda. Os pais,
com sua atitude respeitosa do silêncio do filho, geralmente não confrontam e
aguardam o momento passar, mas ele não passa: ao contrário, se intensifica. Com
o passar do tempo, escondem o sofrimento do filho para que nem ele nem a
família seja julgada pelos vizinhos, amigos e parentes. É cada vez maior o
número de adolescentes, jovens e até mesmo adultos na sociedade japonesa
que se tornam hikikomori, o que geralmente
se dá após vivenciarem uma situação de fracasso perante a qual se sentem
derrotados e indignos, e se isolam porque se veem impossibilitados de manter um
relacionamento com o outro. (REES, 2002). É importante notar que na atualidade
a mediação dos relacionamentos sociais dos jovens japoneses se utiliza de jogos
e máquinas eletrônicas, ocasiões estas atravessadas por uma noção de
individualidade historicamente recente, construída por ideologias
mercadológicas; com isso, os relacionamentos sociais se tornam distanciados,
falsificados e até mesmo irreais, fazendo com que os indivíduos à parte destas
relações fabricadas se vejam sós com suas pulsões, e dada a rigidez das
condutas superegóicas da sociedade, voltem a agressividade para si mesmos, ao
invés de para o outro. (KATSUMATA,
2012; SUWA; SUZUKI, 2013).
As principais características
deste problema sócio psicológico, o hikikomori,
são: fobia social – quando o
indivíduo busca o isolamento social, deixando de sair de casa, trancando-se em
seu quarto, deixando de realizar atividades rotineiras, de dialogar com os
pais; apresentam apatia estudantil que os leva ao abandono dos estudos,
postergando a incursão ao trabalho; narcisismo/desordem
de personalidade de evasão; parasite
singles (parasita solteiro) – termo que designa o jovem depende financeiramente
dos pais, direcionando a renda própria para desfrutar de uma vida de luxo. O hikikomori é uma doença psicológica
grave, que por vezes envolve a automutilação e tentativa de suicídio. (KATSUMATA, 2012).
Como o intuito de apresentar
esta psicopatologia em voga no Japão é justamente apontar para a idiossincrasia
dos fenômenos psicopatológicos que surgem de acordo com as visões de mundo
típicas de determinadas culturas, a fim de fomentar o entendimento de seu modus operandi, é preciso compreender o
funcionamento social e, especialmente, a psicodinâmica familiar típica da
sociedade japonesa. Diferentemente dos pais ocidentais que em sua maioria não têm dificuldade de demonstrar afeto por seus
filhos preparando-os e ensinando-os a serem independentes, e muitas vezes até
mesmo exigindo a independência dos mesmos, os pais japoneses acreditam que o afeto
é demonstrado através da preocupação, por toda a vida, para com os filhos.
Sendo assim, proporcionar uma vida confortável, sacrificar-se, fazer tudo o que
puderem e servir aos filhos com todas as condições materiais é considerado uma
mostra da sua afeição. Esta ideologia dadivosa, aliada da dificuldade de
externalizar os descontentamentos, e o sentimento constante dos filhos de que
estão em dívida com os pais, devendo portanto compensá-los e retribuir seu
cuidado e dedicação, foi que deu origem ao fenômeno hikikomori,
estendendo-se na sociedade japonesa a ponto de criar “um viveiro para o
parasita solteiro ou hikikomori”. (KATSUMATA,
2012, p. 4).
Os pais ocidentais apresentam
características muito diferenciadas quando comparados aos pais orientais. Katsumata (2012) sinaliza que as diferenças
em termo de criação são visíveis, como os pais double bind[8] norte-americanos, capazes de mostrar afeição
através da linguagem que utilizam com seus filhos, distanciando-se friamente deles
quando necessário; já os pais japoneses double
bind invertem esses valores, especialmente nas famílias de hikikomori, mimando demasiadamente os
seus filhos, concedendo um espaço excessivo para o sofrimento calado dos mesmos
por não confrontá-los ou conversar sobre o assunto.
Enquanto os orientais japoneses
são cercados pela solidão, buscando pautar sua vida por meio de imagens ideais que
correspondam às expectativas do outro, preservando, assim, o falseamento da
imagem real ao “esvaziar o copo” constantemente, na cultura ocidental o indivíduo se sente compelido a “encher
mais o copo”, encher até a borda, até transbordar - a sociedade vive em uma
competitividade constante em meio à qual o indivíduo é superestimulado a não
ter colaboradores, mas a viver na solidão performática, mesmo que intelectual.
Como a sociedade ocidental não tem tanta consideração pelos mandamentos do
superego, tal como a sociedade japonesa o têm, não produzirá hikikomoris, mas patologias associadas à
busca incessante pela satisfação pessoal, tendo como lema: viva o Id! - produto
resultante de uma única civilização globalizada e capitalista; mas apesar deste
compartilhamento, faz-se necessário dizer que cada cultura experienciará formas
de adoecimentos específicos.
A cultura brasileira dirige a
agressividade, a euforia e a intensidade dos trejeitos extrovertidos e
sexualizados para o âmbito exterior. Por isso, pode-se falar numa incidência
maior de organizações histriônicas, narcisistas e sociopatas em nossa
sociedade, enquanto que nas sociedades mais socialmente castradoras a tendência
sintomática é a do isolamento (depressão, fobia social, ansiedade generalizada,
entre outras).
A partir destas
novas configurações surgem as mais diversificadas patologias, como no ocidente,
tangido pela busca da
satisfação imediata, na qual o indivíduo não gasta tempo na reflexão e nem
exterioriza de fato quem é, partindo para a atuação nas mais diversas formas: o narcisismo, a drogadição, a sociopatia, entre
outras, e cabe ressaltar que dentre estas atuações da angústia está o
hoje tão difundidamente conclamado nas escolas: o Transtorno de Déficit de
Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Conforme o DSM V são 9 critérios
diagnósticos para TDAH. Destes 9 o indivíduo que apresentar pelo menos
seis ou mais sintomas é acometido deste transtorno. Quanto aos sintomas de desatenção, são: (a) frequentemente não presta
atenção em detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de
trabalho ou outras (p. ex. negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é
impreciso); (b) Frequentemente tem dificuldade de manter a atenção em tarefas e
atividades lúdicas (p. ex. dificuldade de manter o foco durante aulas,
conversas ou leituras prolongadas); (c) com frequência parece não escutar
quando lhe dirige a palavra diretamente (p. ex. parece estar com a cabeça
longe, mesmo na ausência de qualquer distração obvia; (d) com frequência não
segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou
deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade
de compreender instruções) (p. ex. começa tarefas, mas rapidamente perde o foco
e facilmente perde o rumo); (e) com frequência tem dificuldade para organizar
tarefas e atividades (p. ex. dificuldade em gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade
em manter materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e
desleixado, mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazo); (f) com
frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam
esforço mental constante (p. ex. como trabalhos escolares ou deveres de casa
para adolescentes mais velhos e adultos, preparo de relatórios, preenchimento
de formulários, revisão de trabalhos longos); (g) com frequência perde coisas
necessárias para tarefas ou atividades (p. ex., brinquedos, tarefas escolares,
lápis, livros ou outros materiais); (h) com frequência é facilmente distraído
por estímulos externos (para adolescentes mais velhos e adultos, pode concluir
pensamentos não relacionados); (i) com frequência é esquecido em relação a
atividades cotidianas (p. ex. realizar tarefas, obrigações; para adolescentes
mais velhos e adultos, retornar ligações, pagar contas, manter horários
agendados). No que se refere aos sintomas de hiperatividade e impulsividade:
(a) frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na
cadeira; (b) frequentemente levanta da cadeira em situações que se espera que
permaneça sentado (p. ex. sai do seu lugar em sala de aula, no escritório ou
outro local de trabalho ou em outras situações que exijam que permaneça em um
mesmo lugar); (c) frequentemente corre ou sobe nas coisas em situações em que
isso é inapropriado (nota: em adolescentes ou adultos pode se limitar sensações
de inquietude); (d) com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver
silenciosamente em atividades de lazer; (e) está frequentemente "a
mil" ou muitas vezes age como se estivesse "a todo vapor" (p.
ex. não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito tempo,
como em restaurantes, reuniões; outros podem ver o indivíduo como inquieto ou
difícil de acompanhar); (f) frequentemente fala demais; (g) frequentemente
deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída (p. ex.
termina as frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar); (h)
frequentemente tem dificuldade para esperar a sua vez (p. ex., aguardar em uma
fila); (i) frequentemente interrompe ou se intromete (p. ex., mete-se nas
conversas, jogos ou atividades; pode começar a usar as coisas de outras pessoas
sem pedir ou receber permissão; para adolescentes e adultos; pode intrometer-se
em ou assumir o controle sobre o que os outros estão fazendo).
Estes sintomas, mesmo que isolados e incapazes de sinalizar o montante
dos critérios necessários para se estabelecer o diagnóstico, funcionam como um
radar judicativo que, de forma apressada (hiperativa/impulsiva?), imputam um
destino ao comportamento infantil, destino este realizado por meio de
diagnósticos imprecisos, dados muitas vezes por pessoas que não detém a
autoridade para tanto (médicos clínico gerais, professores, pais). Será que de
fato o índice de TDAH é tão elevado assim? Será que a sociedade está sendo apta
a diagnosticar com maior precisão? Ou estes diagnósticos retratam outra realidade,
e os sintomas podem ser explicados de forma diversa? Cury (2014) parte desta
última premissa e aponta a existência de uma nova síndrome que está sendo
severamente confundida como o TDAH, a por ele nomeada de Síndrome do Pensamento
Acelerado (SPA). Segundo ele, a SPA atinge mais de 80% dos indivíduos de todas
as idades, inclusive as crianças que sofrem pressões por parte dos pais e são
preenchidas de afazeres devido à competitividade exigida pela sociedade
capitalista. Deste modo, tanto crianças quanto adultos vivem em uma ansiedade
constante, exibindo sintomas psíquicos e psicossomáticos decorrentes dessa
síndrome que comprometem o desempenho global do intelecto.
Sem perceber, a sociedade moderna – consumista, rápida e estressante –
alterou algo que deveria ser inviolável, o ritmo de construção de pensamentos,
gerando consequências seríssimas para a saúde emocional, o prazer de viver, o
desenvolvimento da inteligência, a criatividade e a sustentabilidade das
relações sociais. Adoecemos coletivamente. Este é um grito de alerta. (CURY,
2014, p. 1).
Este mesmo autor ainda pontua que em muitos diagnósticos os
especialistas como neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos se
equivocam ao observar queixas como a constante desconcentração, a
irritabilidade, a inquietude, o baixo limiar para a frustração e a resistência
às normas, vigentes na SPA, com o TDAH, devido à semelhança dos sintomas;
entretanto, elas diferem quanto às causas e a terapêutica adotada - a etiologia
da hiperatividade pode eclodir da genética, pois geralmente um dos pais é
hiperativo, ao contrário das causas da SPA, que podem remeter ao excesso de
estimulação que a criança é exposta por meio de seus brinquedos, atividades e
informações; quanto ao tratamento da hiperatividade, também encontramos
diferenças, uma vez que na SPA não há alteração metabólica e sim uma falha
funcional e social relacionada à construção da personalidade e da que maneira a
mente funciona, podendo ser corrigida através de mudanças no ambiente e na
forma com que os pais se relacionam com a criança. Nesta mudança de rotina é
fundamental, por exemplo, a “desaceleração” da criança por meio da realização de
atividades mais lentas e lúdicas, como ouvir músicas tranquilas (música instrumental),
tocar instrumentos, pintar, praticar esportes (não visando o desempenho e a
competição, mas o lazer), ou fazer teatro. Caso estas técnicas de manejo da
desaceleração não sejam implementadas, a criança não aprenderá a “gerenciar
seus pensamentos e proteger sua emoção”, repetindo, assim, os mesmos erros,
irritadiça, com baixo limiar a frustrações e com dificuldade em aceitar
contrariedades, permanecendo sempre insatisfeita e evidenciando comprometimento
do rendimento intelectual. (CURY, 2014, p. 28).
Ao se considerar a validade da categoria
diagnóstica da SPA invariavelmente o diagnóstico estrito do TDAH é colocado em
discussão, uma vez que os sintomas podem ser produto de uma vida
superestimulada proporcionada pela sociedade altamente competitiva à criança.
Se os pais ensejam prepará-la, desde muito cedo, para a competição de mercado,
instituída por meio de uma rotina exacerbada e atividades lúdicas altamente
estimulantes, certamente as crianças receberão
a carga de ansiedade, a qual só conseguem manejar através da eliminação pela
via motora; e se a ansiedade prejudica a concentração, a aprendizagem também é
dificultada – já que, comparada a um videogame ou a uma brincadeira barulhenta,
a sala de aula fica muito atrás dos interesses culturais proporcionados
cotianamente. Mesmo a ansiedade não é bem compreendida; ela é uma característica importante para a
potencialização intelectual do sujeito, mas somente é vista como um sintoma
psicopatológico. De forma inicial, vale mencionar como os principais dicionários da língua
portuguesa explicam o termo: aflição, angústia, perturbação do espírito
provocada por incertezas, podendo estar relacionada com qualquer situação
perigosa. (FERREIRA, 2004; MICHAELIS, 1999).
Tal fenômeno por vezes pode beneficiar o indivíduo e em outros momentos
ser altamente prejudicial, uma vez que, dependendo da situação, pode tornar-se
patológico, dificultando o bom funcionamento da mente e do corpo.
A ansiedade é um estado emocional com
componentes psicológicos e fisiológicos que faz parte do desenvolvimento do ser humano, podendo
tornar-se patológica quando acontece de forma exagerada e sem uma situação real
ameaçadora que a desencadeie. No ser humano, as causas mais comuns da ansiedade
não são de natureza biológica, mas sim psicológicas, surgindo em função de
comunicações simbólicas, verbais ou não, interpretadas à luz de conceitos,
crenças e valores formulados por uma comunidade sociocultural. (CAÍRES; SHINOHARA, 2010, p. 63).
A
ansiedade é um mal estar contemporâneo que surge na medida em que a sociedade
constantemente impõe ditames que, mesmo sendo inatingíveis, são perseguidos a
ponto de se abrir mão do que é particular, próprio e único, a fim de não se
correr o risco de ficar fora dos padrões preestabelecidos. E se esta escolha valerá ou não a pena, só o
tempo dará a resposta; e seja ela qual for, será o próprio indivíduo quem
sofrerá suas consequências, sejam elas boas ou ruins.
[1]
Segundo Laplanche e
Pontalis (2001, p. 364) o Princípio do Prazer é um dos princípios que rege o
funcionamento mental, cuja atividade psíquica concentra-se em “evitar o
desprazer e proporcionar o prazer”. Tal princípio busca a satisfação imediata
pela redução à excitação interna.
[2]
O processo primário é um modo característico do inconsciente, onde o bebê
alucina, por ser a maneira mais
curta de satisfação do desejo, embora não seja considerado a melhor forma. (LAPLANCHE;
PONTALIS, 2001). É através deste processo que a energia pulsional escoa livremente tendendo a descarga imediata
e total e atinge as representações de acordo com os mecanismos de condensação e
deslocamento. (ZIMERMAN, 2001).
[3]
O processo secundário é o modo que característica o sistema
pré-consciente-consciente. Este processo busca impedir a ação sob processo
primário. É justamente por meio deste processo que o pensamento experimenta
diferentes destinos para a satisfação. “A energia começa por estar ‘ligada’,
antes de escoar de forma controlada; as representações são investidas de
maneira mais estável, a satisfação é adiada, permitindo assim experiências
mentais que põe a prova os diferentes caminhos possíveis de satisfação”.
(LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 371).
[4]
Organizada pelo id, e não pelo ego.
[5] Narcisismo primário designa um estado
precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. (LAPLANCHE;
PONTALIS, 2001, p. 290).
[6] De acordo com Laplanche e Pontalis (2001, p. 128) é um mecanismo de defesa
primitivo, alicerçado pela onipotência mágica, utilizado pelo ego para rejeitar
a determinada vivência e a “tomada de conhecimento de tais experiências
emocionais ansiogênicas”. A Renegação tem menor gravidade ao ser comparado com
a forclusão psicótica, por apresentar-se “mais parcial e estar encapsulada em
uma só parte do ego”. Este mecanismo foi descrito por Freud como Verleugnung, cujo significado é
renegação, denegação, recusa, desestima, desmentida. É característico em
estruturas perversas, pois através deste mecanismo, o indivíduo nega verdades
por ele conhecidas, reforçando uma falsa crença.
[7] Hikikomori significa ‘retirada’ – é
um termo japonês que descreve jovens ocidentais que se retiram do convívio
social, vivendo em isolamento por 6 meses ou mais, além de se recusarem a
trabalhar e estudar. O problema tem se desenvolvido nos últimos 30 anos, e os
números de casos estimados giram em torno de centenas de milhares, podendo
chegar até de 1,2 milhões, sendo sua maior incidência em homens. (KATSUMATA, 2012; SUWA; SUZUKI, 2013).
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
CAÍRES, Monique Cabral; SHINOHARA, Helene. Transtornos
de ansiedade na criança: um olhar nas comunidades. Revista Brasileira de Terapias
Cognitivas. Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 62-84, 2010. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/ pdf/rbtc/v6n1/v6n1a05.pdf>. Acesso em: 17
abril 2015.
CURY, Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal do século: a síndrome do pensamento
acelerado: como e por que a humanidade adoeceu coletivamente, das crianças ao
adulto. São Paulo: Saraiva, 2014.
FERREIRA,
Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.
KATSUMATA,
Miho. Hikikomori: A Qualitative Study on Social Withdrawal of Japanese
Adolescents. Scholar. Thailand, v. 3, n. 2, 2011.
Disponível em:<
http://its-3.au.edu/open_journal/index.php/Scholar/article/view/233>. Acesso
em: Acesso em: 18 fevereiro 2015.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa.
5. ed., São Paulo: Companhia de melhoramentos,
2009.
REES, Philip. The
mistery of the missing million. [Documentário exibido pela BBC], Japão: Vimeo, 2011. 1 vídeo: 45 min., som e cor.
Disponível em: <https://vimeo.com/28627261>. Acesso em: 6 outubro 2015.
SUWA,
M.; SUZUKI, K. The phenomenon of “hikikomori” (social withdrawal) and the
socio-cultural situation in Japan today. Journal
of Psychopathology, Nagoya, v. 19, p. 191-198, 2013. Disponível em:
<http://www.jpsychopathol.net/issues/2013/vol19-3/01b-Suwa-abstract.html>.
Acesso em: 18
fevereiro 2015.
ZIMERMAN, D. E. Fundamentos
Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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